        Ttulo: Chamado do amor.
Autora: Barbara Cartland.
Dados da Edio: Nova Cultural, So Paulo, 1987.
Ttulo Original: The Unbreakable Spell.
Gnero: romance.
Digitalizao: Dores cunha.
Correco: Ana Paula ruas.
Estado da Obra: Corrigida.
Numerao de Pgina: Rodap.
Esta obra foi digitalizada sem fins comerciais e destinada unicamente  leitura de pessoas portadoras de deficincia visual. Por fora da lei de direitos de autor,
este ficheiro no pode ser distribudo para outros fins, no todo ou em parte, ainda que gratuitamente.

Coleo Barbara Cartland n 175

BARBARA CARTLAND
O Chamado do Amor
Leitura - a maneira mais econmica de cultura, lazer e diverso.
Ttulo original: The Unbreakable Spell
Copyright: (c) Barbara Cartland 1984
Traduo: Snia Orieta
Copyright para a lngua portuguesa: 1987
EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.
Av. Brigadeiro Faria Lima n 200 - 3 andar
CEP 01452 - So Paulo - SP - Brasil
Caixa Postal 2372
Esta obra foi composta na Artestilo Compositora Grfica Ltda. e impressa na Editora, EDITORA PARMA LTDA.

Nota da Autora
Muitos cavaleiros usavam uma bengala, inocente na aparncia, mas contendo no seu interior a afiada lmina de uma espada. A produo desse tipo de arma data de 1730 
e continuou at o final do sculo XIX.
Por volta de 1820 ia-se de Dover, na Inglaterra, a Calais, na Frana, em trs horas e, mesmo com mau tempo, no se levava mais de cinco ou seis horas para atravessar 
o canal da Mancha.
Entre os transportes coletivos existentes na Frana, a diligncia era o mais rpido. Os cavalos, trocados a cada 20 quilmetros, galopavam bem. Havia trinta postos 
de troca entre Calais e Paris.
O transporte mais confortvel, porm, eram as suntuosas carruagens, puxadas por cavalos velozes e muito bem tratados dos grandes senhores. Isso, naturalmente, ficava 
muito dispendioso.

CAPTULO I
(1820)
Sentada no largo peitoril da janela do quarto de estudos do castelo, Rosana cerzia calmamente uma pea de roupa. De repente a porta do quarto abriu-se e sua prima, 
Carolina, entrou ofegante e com as feies transtornadas.
- O que h, Carolina?
Por alguns momentos a jovem no conseguiu responder, mas, tomando flego, dominou-se e exclamou, furiosa:
- No! No e no! No me casarei com ele, mesmo que papai queira
 obrigar-me a isso!
- Casar? - perguntou Rosana. - Do que est falando? A moa sentou-se junto  prima, torcendo as mos.
- Voc no vai acreditar no que vou lhe dizer!
Meio surpresa, a jovem ps no colo a finssima gola de renda de Bruxelas de um vestido da duquesa, sua tia, que ela acabara de consertar caprichosamente e a pediu 
 prima:
- Conte-me ento, o que a deixou to exasperada.
- Eu, exasperada? Estou furiosa, arrasada, e no sei mais o que fazer!
Havia algo de pattico em sua atitude e Rosana, pondo uma das mos sobre a de Carolina, num gesto fraterno, insistiu:
- Mas, afinal, o que aconteceu, prima?
- Papai acaba de me dizer que o marqus de Quorn  vir para a corrida de obstculos, na quarta-feira, e pretende pedir-me em casamento.
- O marqus de Quorn ! Voc tem certeza? - exclamou Rosana, espantada.
- Claro que tenho! E quando eu disse a papai que no me casaria com o marqus, ele se limitou a responder: "No quero discutir esse assunto com voc. Fale com sua 
me".
Doloroso silncio envolveu as duas moas, pois sabiam que de nada adiantaria falar com a duquesa.
Carolina levantou-se, nervosa e agitada, e quase gritando, disse:
- Eu no me casarei com ele! No casarei mesmo! Voc bem sabe como eu amo Patrick. Ele aguardava apenas uma oportunidade para falar com papai.
A prima no fez nenhum comentrio; sabia, de antemo, que Carolina jamais teria a permisso dos pais para casar-se com Patrick Fairley. Apesar de o moo ser uma 
pessoa encantadora e filho de um baronete, a duquesa tinha planos bem mais ambiciosos para o futuro de sua filha.
A jovem sempre fora calma e submissa aos desejos da me. Agora, porm, tendo-se apaixonado, o amor deixava transparecer nela um pouco daquela mesma determinao 
materna.
As propriedades dos pais de Patrick e de Carolina eram vizinhas por isso conheciam-se desde crianas. Alm do mais, fazia muito pouco tempo que Carolina sara do 
quarto de estudos para se tornar uma debutante das altas rodas da Corte. Antes, seus pais jamais tinham permitido que a jovem participasse de algum evento social, 
mesmo no castelo. Ela permanecia confinada, junto  prima e  governanta, nos aposentos do andar superior.
Foi inevitvel, portanto, que encontrando-se diariamente com Patrick, durante seus passeios a cavalo pelas redondezas do castelo, viessem os dois jovens a se apaixonar. 
S Rosana sabia disso e ficava imaginando qual seria a reao da duquesa, quando se inteirasse do fato. No fundo, j previa o que iria acontecer.
A castel era uma mulher forte, conseguira obrigar o marido a conquistar uma posio de autoridade no condado, e tambm forara-o a assumir suas obrigaes hereditrias 
no palcio real.
O duque, homem bonacho, contentava-se em passar o tempo cuidando de suas propriedades e entretendo-se com seus cavalos e cachorros de raa. Sua nica extravagncia 
era inscrever nos
8
preos seus animais de corrida que raramente venciam. Davamlhe, entretanto, a oportunidade de participar desses acontecimentos pelos quais a mulher no manifestava 
nenhum interesse.
Certa vez, numa dessas ocasies, conhecera o marqus de Quorn . Mesmo nos lugares mais distantes do pas, era impossvel no se ter ouvido falar de uma tal personalidade. 
Amigo ntimo do prncipe regente diferia, em muitos aspectos, dos nobres que cercavam sua alteza real.
O marqus no era apenas conhecido como um dos homens mais ricos do pas, mas tambm como pessoa bem-sucedida em tudo que empreendia.
O prprio duque no deixava de exaltar os sucessos do amigo nas corridas, onde seus cavalos arrebatavam todos os prmios.
Conhecido, ainda, como excelente atirador e pugilista enfrentara at mesmo os cavalheiros Jackson e Mendoza. Alm do mais, durante a guerra, fora condecorado com 
vrias medalhas pelo herosmo demonstrado em ao.
Mas, se por um lado era elogiado devido a essas faanhas, por outro, havia muitos mexericos a seu respeito.
Aos ouvidos de Rosana, atravs dos empregados, tinham chegado alguns comentrios custicos. E, apesar de absolutamente no lhe interessar, ouvira falar dos muitos 
casos amorosos do marqus. Comentavam que mais de uma bela senhora da sociedade suicidara-se ao ser abandonada por ele, enquanto outras teriam enlouquecido.
Contavam, ainda, que participara de muitos duelos, dos quais sara sempre vencedor. Seus adversrios eram, quase invariavelmente, maridos que o desafiavam em defesa 
de sua honra.
Para Rosana, representava quase um personagem de romance e a moa ficava atiando as conversas, a fim de descobrir mais pormenores a seu respeito.
Agora, sabendo das pretenses com referncia a Carolina, a perplexidade apossara-se dela.
Quando conseguiu falar, perguntou:
- Mas voc ao menos conhece o marqus?
- Eu o vi umas trs vezes. Jersey apresentou-o a mim. no Almack's.
- E sobre o que vocs conversaram?
- Nada, eu estava to envergonhada e ele to carrancudo, que achei melhor calar-me.
- E quando tornou a v-lo?
- No sei direito, talvez no baile de Devonshire House.
- L, o que aconteceu?
- Ele veio falar com papai sobre corridas. Depois de os dois conversarem durante algum tempo, papai perguntou: "Conhece minha filha Carolina? "
- O marqus inclinou-se cortesmente e disse: "Ns danamos no AlmackV.
- Fiquei to surpresa de ele se lembrar daquela ocasio, que s consegui dizer: "Sim,  verdade!" Depois disso, no falou mais comigo.
- E quando se encontraram novamente?
- Em um jantar, sucedeu sermos vizinhos de mesa, mas no houve tempo para muita conversa, pois a lady, sentada do seu outro lado, no me dei oportunidade para tal.
Carolina fez uma pausa e depois continuou:
- Ele  muito cheio de si, orgulhoso de sua importncia, e olha-me com ar condescendente. E se voc quer saber a verdade, no gosto dele!
- Ento, como ir se casar com ele? - perguntou a prima intrigada.
- No sei, no sei! Tudo isso  trama da mame. Se no conseguiu arranjar um prncipe ou um duque para mim, o prximo seria um marqus! - respondeu Carolina, chorando.
Pelos boatos a seu respeito, Rosana conclura ser o pretendente da prima muito mais importante do que um duque.
Por outro lado, pde compreender qual a razo da pobre Carolina sentir-se desamparada e profundamente infeliz pela perspectiva do seu consrcio com um homem superposicionado 
e da reputao do marqus. O ilustre titular estava, sem dvida,  procura de uma esposa, porque, mais cedo ou mais tarde, deveria apresentar um herdeiro para seu 
ttulo, seus bens e possesses,
10
Rosana no vira as outras debutantes, mas tinha certeza de que nenhuma havia superado sua prima Carolina. Ela representava, exatamente, a tradicional "rosa inglesa". 
Possua lindssima pele rosada e grandes olhos azuis-claros. Seu rosto era emoldurado por belos cabelos loiros que qualquer poeta descreveria como o "ouro do trigo 
maduro".
Graciosa e de muito bom gnio, seria demais querer que fosse tambm deveras inteligente. Na verdade, durante as aulas Rosana  que aprendia tudo com maior facilidade 
e, depois persistia, estudando sozinha.
Aps a morte dos pais, quando foi viver no castelo, parecia-lhe estar numa priso, na qual permaneceria encarcerada pelo resto da vida. S pensava em morrer. Quando, 
porm, descobriu a biblioteca, os livros assemelhavam-se a um tesouro a conquistar: encontrara, afinal, uma razo para viver.
A me lhe havia incutido, desde pequena, a ideia de ser curiosa. Assim, ela queria sempre aprender, mais e mais, a respeito de tudo que lhe falassem. Sua querida 
me tambm lhe ensinara o francs, o seu idioma, e lhe contara que alm dos britnicos, que julgava maravilhosos, havia muitos outros pases e povos interessantes 
pelo mundo afora.
Tudo isso fora difcil de entender durante a guerra, porque os ingleses combatiam a ptria de sua me e, como consequncia, muitos dos assim chamados amigos e at 
parentes prximos de lorde Leo passaram a ignorar sua esposa.
S depois de viver algum tempo no castelo, Rosana percebeu que o duque tivera cime do irmo mais novo, e a duquesa, de sua me.
Nas famlias aristocrticas inglesas, de acordo com os costumes da poca, o filho mais velho recebia toda a herana dos pais. Assim, o atual duque de Bruntwick herdara 
o ttulo, o castelo e amplas terras, enquanto seu irmo mais novo recebia, por mera condescendncia, uma reles penso que sempre o deixava endividado.
Ainda assim, todos amavam lorde Leo, como era conhecido em toda parte. Sempre bem-vindo onde chegasse, seus verdadeiros amigos apreciavam e recebiam sua esposa francesa. 
Para
sua me, porm, certamente fora uma situao muito difcil. Ela era filha do embaixador francs na Inglaterra, durante o breve armistcio de 1812.
Lorde Leo conheceu a linda jovem francesa em uma festa, em Londres. Percebeu imediatamente ter encontrado a mulher que compartilharia a sua vida. Ele era elegante, 
simptico e popular. Atraa no s a ateno das mulheres como tambm o respeito dos homens. Possua um charme ao qual poucas pessoas e nenhum animal conseguiam 
resistir. No era, pois, de admirar que a bela Ivette de Soissons tivesse sua ateno despertada e, logo, se apaixonasse pelo moo.
Apesar da desaprovao do duque e da duquesa de Bruntwick e dos receios naturais do Embaixador, eles se casaram alguns meses depois.
Dizer que foram felizes,  pouco.
Eram felicssimos e tudo correra bem, at serem decretadas as hostilidades entre Frana e Inglaterra.
O embaixador teve de regressar  sua ptria e, apesar de ser rico, no conseguira enviar dinheiro  filha.
"Sei que sou um peso!", Rosana ouvira sua me dizer certa vez, julgando que a menina no estivesse perto. E escutara o pai responder com muito carinho: "Para que 
desejaria meu dinheiro, se eu tenho voc, a lua, as estrelas e uma felicidade que o prprio Midas invejaria? " Envolvera-a em seus braos e a beijara muito, at 
que comearam novamente a rir, porque era maravilhoso estarem juntos. E, a partir daquele momento, Rosana aprendeu que o dinheiro no compra o amor.
Desde que chegara ao castelo, Rosana conscientizara-se de que era mal vista. No passava um dia sem que a duquesa no lhe jogasse ao rosto ser ela rf e no ter 
um nquel, devendo, portanto, ser muito grata ao tio, no s por lhe dar um teto, mas por fornecer-lhe o alimento dirio.
- Seu pai era um extravagante, irresponsvel e muito imprevidente! Quanto  sua me.
Para descrever a cunhada morta s havia palavras agressivas na boca da prepotente castel.
12
Quando Rosana se olhava no espelho e lembrava que era parecida com sua me, compreendia porque a tia a odiava tanto.
O duque fizera um casamento de interesse, segundo o costume. Isso representava a fuso de duas grandes famlias e, assim, o matrimnio foi considerado altamente 
recomendvel.
O duque de Hull, pai da duquesa, dera-lhe um dote grande. com sua morte, ela herdada ainda vrios quarteires e ruas em Londres que rendiam, anualmente, uma soma 
considervel. Ela era, alm disso, muito perspicaz e tanto manobrara que seu marido fora indicado Mestre do Cavalo do Rei. Esta ocupao, naquele momento, pouco 
trabalho lhe dava, pois o monarca estava  morte.
Mais tarde nascera Carolina que herdara, felizmente, a elegncia e o porte da famlia do pai.
J em Rosana, fundiram-se tanto os traos dos ancestrais ingleses, quanto os dos franceses, conferindo-lhe um tipo muito especial e atraente.
Era uma das razes pelas quais sua tia a conservara afastada dos eventos sociais da famlia. Rosana era um ano mais velha que Carolina, e
 fazia-lhe companhia. Sua convivncia ficava, porm, confinada a seus dormitrios e ao quarto de estudos e s quando a famlia no tinha convidados, Rosana tinha 
permisso de tomar as refeies com eles.
A princpio no compreendera por que sua tia a isolava desse jeito, achando que talvez fosse devido ao luto pela morte do pai, que morrera um ano depois de sua me.
Um dia, porm, a duquesa explicou o fato com a maior franqueza. Em tom incisivo, dissera:
- Eu jamais aprovei o casamento de seu pai, Rosana. Quanto  sua me, era uma inimiga deste pas, uma estrangeira, que deveria ter permanecido presa durante a guerra. 
No quero, por isso, que voc se relacione com os amigos de Carolina, e nem tampouco desejo a sua presena quando estivermos nos divertindo.
Depois de uma pausa, prosseguiu em tom rancoroso:
- Voc pode ser mais til, ajudando-a a escolher as roupas ou, ento, arrumando seu quarto, quando as empregadas estiverem 
13
ocupadas. E, quando formos a Londres, voc permanecer aqui.
Emile, a velha ama de Carolina, explicou a Rosana por que estava sendo tratada daquela maneira, ao encontr-la debulhada
em lgrimas.
- Ah, queridinha, no se aborrea com isso, a duquesa tem
cime de voc,  isso apenas.
- Cime? - perguntou Rosana, incrdula. - Cime por
qu, Emile?
- Ela sempre foi cheinha, mesmo quando era jovem, e agora, ento, que esto lhe aparecendo as primeiras rugas est ficando gorda,  claro que no gosta de perceber 
a diferena que, h tempos, j havia entre ela e sua me!
- Nunca imaginei que tia Sofia pudesse ter cime de mame!
- Naturalmente, ela sempre teve! Assim como o duque tambm sentia cime de lorde Leo. Como no seria assim, se todos adoravam seu pai? Ele montava muito melhor que 
o duque e sempre o vencia nas corridas de obstculos ou ponto a ponto. Isso desde o tempo de meninos!
Olhando-se no espelho, Rosana observava que apesar de ter cabelos loiros, caracterstica da famlia dos Bruntwick; por influncia da me, que era morena, seus olhos 
no eram azuis como os de Carolina, mas possuam tonalidade peculiar.
- Olhos de amor-perfeito - dizia-lhe o pai, acrescentando que os olhos de sua querida Yvette o hipnotizavam a ponto de no conseguir desviar sua vista deles.
Sim, a cor dos seus olhos era realmente estranha, pensava Rosana, pois sua pele era bem rosada, de acordo com a tradio dos Bruntwick. Seu rosto, tinha o formato 
de um corao, como ela vira em alguns retratos de suas antepassadas francesas e, quando ela sorria, seus lbios tomavam um feitio sensual, bem diferente do inocente 
arco de Cupido dos de Carolina. Ela lembrava-se de ter ouvido o pai dizer  sua me: "Querida, voc  uma feiticeira. Certamente me enfeitiou! Talvez seja a reencarnao 
da fada Morgana ou de algumas das
14
feiticeiras medievais queimadas em fogueira, porque o povo as temia."
"Voc est com medo de mim?", perguntava-lhe a me carinhosamente.
"S com medo de perd-la, querida, pois sabe tanto quanto eu, que basta um homem olhar para voc, para ach-la irresistvel! "
Sua me dera uma risada e comentara:
"Isso  apenas um elogio para voc, meu querido. Para mim, somente um homem existe no mundo inteiro! O homem que eu escolhi. E lanarei mo de qualquer frmula mgica 
para mantelo cativo! "
Atrs de Rosana, Emile, a velha ama, parecia seguir seus pensamentos e ia falando:
- Voc tambm  muito bonita, filha, e esta  a razo verdadeira! Fico imaginando, s vezes, por que a duquesa no deixa voc participar das festas, onde certamente 
encontraria um bom marido!
Era um pensamento muito triste. Quando Rosana completou dezoito anos, s pensava em se casar para escapar quela vida no castelo. Jovem como era, sonhava com a chegada 
de um cavaleiro revestido de brilhante armadura e que se apaixonasse  primeira vista e a salvasse do seu crcere.
Ela era infeliz no castelo, no apenas por sua tia no suportla, mas porque ali era um lar onde no havia amor.
Lembrava-se dos tempos que vivia com os pais na pequena propriedade de Manor, que o duque havia dado a seu irmo, e onde sempre reinavam a alegria e a felicidade. 
Seu pai e sua me souberam transmitir-lhe aquele calor humano que nada tinha a ver com o fogo crepitante das enormes lareiras. No castelo, at mesmo durante o vero, 
Rosana sentia arrepios.
Quando Carolina viajou para Londres, em abril, com os lindos vestidos de baile, e j prevendo o sucesso que a lanaria na Corte, Rosana teve de ficar no castelo, 
o que a faz sentir-se muito s.
Pensando em tudo isso, concluiu que no adiantaria "chorar pelo leite derramado". Deveria dar graas a Deus pelos poucos
15
prazeres que podia usufruir. Entre esses, o principal era o de passear a cavalo. O outro era ler os livros da biblioteca, mas s de noite. Durante o dia, a duquesa 
lhe dava grande quantidade de roupas para cerzir.
Carolina e Rosana passeavam a cavalo sempre sozinhas, pois o duque achava um desperdcio mandar um pajem acompanhlas, quando transitavam pelas redondezas do castelo.
Quanto a Patrick Fairley, esperava ansiosamente a volta de Carolina, pois temia que ela, uma vez em Londres, pudesse esquec-lo. Procurava conversar com Rosana para 
saber notcias.
- Acha que Carolina me ama, Rosana? Quero dizer, com amor verdadeiro, profundo? Ser que em Londres recorda-se ainda de mim?
Rosana procurava consol-lo, pois conhecia os sentimentos da prima. No aquela paixo arrebatadora, aquele xtase que sua me tivera por seu pai, mas era o amor 
profundo e calmo de que Carolina era capaz.
Quando a estao terminou, em meados de junho, e o prncipe regente saiu de Londres para ir a Brighton, Carolina voltou com os pais para o castelo e ficou felicssima 
ao rever Patrick.
Todas as manhs cavalgava com Rosana atravs do parque e do bosque, em direo  pequena propriedade de Patrick. Ele vinha encontr-las no meio do caminho. Rosana, 
logo, desviava seu cavalo e passeava sozinha a fim de deixar os namorados  vontade.
E, s vezes, ficava imaginando como seria bom encontrar tambm algum que a amasse e lhe falasse naquele tom de voz to diferente, que Patrick adotava, quando se 
dirigia a Carolina. Outras vezes comentava consigo mesma:
"Talvez eu tenha de envelhecer sem ter encontrado "aquela pessoa" e sem ter ido a parte alguma."
Procurava consolo vagando pelo mundo dos sonhos e nos livros, h tanto tempo guardados nas prateleiras da biblioteca.
Naquela manh, porm, compreendera que mesmo amando demais a Patrick, Carolina seria obrigada a casar com o marqus de Quorn  e talvez at viesse a ach-lo um bom 
marido.
16
- O que devo fazer, Rosana? - perguntava Carolina desesperada. Tenho de me casar o quanto antes com Patrick! Preciso fazer isso, voc sabe. Jamais poderia me unir 
a um homem como o marqus de Quorn ! Eu no o amo!
Rosana tambm achava que isso era, sem dvida alguma, a verdade e por isso perguntou:
- Como  ele? Descreva-o para mim.
- Acho que at  simptico - respondeu Carolina relutante. Mas  muito pretensioso, dominador, e as moas em Londres comentavam muito sua vida amorosa.
- E conversavam com voc sobre esse assunto?
- Naturalmente. Em Londres ningum fala sobre outra coisa seno o amor. E repetiam sempre como havia mulheres chorando porque o marqus as abandonara, enquanto outra 
se vangloriava por ele ter transferido suas atenes para ela.
Isso era justamente o que Rosana ouvira dos empregados.
- E por que acha que ele quer se casar?
- J sei qual  a razo.
- Ah! Sim?
- Sim, ele se envolveu num caso com a esposa de um diplomata e est tentando escapar de uma situao que poderia transformar-se em incidente internacional.
No conseguindo ocultar seu espanto, Rosana perguntou:
- Mas ento  por isso que vai pedir a sua mo em casamento?
Carolina sentou-se no peitoril da janela e contou:
- Quando chegamos a Londres, todos comentavam a vida do marqus. No estavam interessados em mais nada. Diziam que ele no pretendia se casar, porque achava muito 
aborrecido viver com uma nica mulher e, por isso, preferia ter uma coleo delas.
- Mas isso  horroroso! - exclamou Rosana assombrada.
- Foi o que tambm achei, mas como no estava interessada, pois s pensava em Patrick, nem liguei.
- Sim, claro. Continue.
- A comecei a ouvir falar de uma tal madame, cujo nome no lembro mais, que dizem ser muito bonita, de cabelos avermelhados e olhos verdes. E, assim, todos ficavam 
cochichando e
17
comentando, horas e horas, sobre o que o marqus e sua amante estariam fazendo, para onde teriam ido, etc.
- E, depois, o que aconteceu?
- Voltamos para casa hoje e hoje soube, por papai, que o marqus vai se hospedar aqui e talvez dirija suas atenes para mim.
- Talvez? - indagou Rosana, intrigada.
- O marqus, provavelmente, no pretende se comprometer porque, caso sua situao melhore, ele pode escapar sem ter assumido uma obrigao - acrescentou Carolina 
amargamente.
Rosana viu que ela percebera muito bem a jogada do nobre senhor e, por isso, olhando fixamente a prima, disse:
- Acho insultante esse comportamento, e seu pai deveria ter repelido tal pretendente.
- Se eu pedisse, papai certamente o faria. Porm, voc imagina como mame o deve ter azucrinado, para que receba o marqus com todas as honras. Ela jamais me deixaria 
dizer "no".
Essa era a verdade, a jovem no insistiu e apenas disse comovida
- Oua, Carolina, sinto muito por voc.
- O que posso fazer, minha amiga? Preciso contar tudo a Patrick e pedir o seu conselho.
- Ter de esperar at amanh cedo.
- No posso! No posso esperar tanto tempo! Tenho de vlo ainda esta noite. - Lembrando-se de alguma coisa, acrescentou: - vou poder fazer isso, sim! Papai e mame 
vo jantar fora e como eu no fui convidada... - olhando para Rosana, pediu:
- Voc tem de me ajudar! Precisa somente ir at a Granja e dizer a Patrick para se encontrar comigo no lugar de sempre.  melhor ele no vir aqui, por causa dos 
empregados, que poderiam contar depois a mame.
- No, ele no deve vir, mas como explicar a minha ausncia, se tia Sofia perguntar por mim?
- Voc acha que ela desconfia de alguma coisa?
- Talvez pense que eu esteja lhe falando sobre o casamento e queira nos surpreender.
18
Sabendo que aquilo poderia realmente acontecer, Carolina levantou-se e comeou a andar nervosamente pelo quarto.
Eu preciso ver Patrick, custe o que custar!
- Bem, eu irei avis-lo. Mas vamos esperar at as cinco horas, quando sua me costuma ir descansar.  melhor voc ir procur-la e ficar conversando com ela sobre 
Quorn .
Carolina fez uma careta, mas sabia que Rosana tinha razo. As duas continuaram conversando e Carolina repetia que no poderia se casar com mais ningum a no ser 
Patrick.
Rosana percebeu que a prima estava ciente da inutilidade daquela luta. A menos que acontecesse um milagre, por ocasio da chegada do marqus, Carolina seria forada 
a aceitar seu pedido.
Enquanto cavalgava pelos campos, respirando o ar de uma liberdade bem relativa, Rosana preocupava-se com o monte de roupas que devia cerzir e que deixara para trs, 
levada pelo papel que passara a desempenhar naquele romance.
Ela compreendia que embora sua prima e Patrick tivessem grande afeto mtuo, no havia termo de comparao entre a proposta de casamento do rapaz e a do marqus de 
Quorn . O duque e a duquesa considerariam as intenes do moo verdadeira impertinncia.
Rosana conhecia intimamente a prima e no tinha nenhuma dvida sobre a excelente esposa que seria para Patrick. Os dois, uma vez casados, seriam muito felizes. Carolina 
jamais encontraria nenhuma espcie de felicidade ao lado de algum com as caractersticas do marqus.
Todos os comentrios que ouvira a respeito da vida do ilustre nobre permitiam-lhe concluir que era um espcime meio devasso e meio debochado da nobreza inglesa e 
que somente uma mulher do talhe da dama de cabelos vermelhos e olhos verdes conseguiria dom-lo.
Sabendo to pouco dos artifcios e das manobras da sociedade, achava que somente o amor poderia fazer um homem daqueles feliz e o manteria fiel a uma nica mulher. 
Rosana bem
19
sabia que seu prprio pai tivera uma poro de romances antes de encontrar sua me. Na realidade, isso seria inevitvel por ele ser to atraente e amigo de aproveitar 
bem a vida.
Lorde Leo no invejava o irmo, seus bens, seu castelo, suas propriedades e soberbos cavalos. Sorria para a pobreza, como o faria para qualquer outra coisa. Cavalgava 
melhor que ningum todo tipo de cavalo, montando-o com tanta elegncia que, por assim dizer, era ele quem ganhava a corrida em vez do corcel.
Transmitia tanta alegria de viver s pessoas que Ivette sempre dizia, em tom de brincadeira, que as mulheres o seguiam como se fosse o prprio "Mgico da Flauta". 
Ao que ele sorria, dizendo:
"Quando eu a encontrei, minha querida, todas desapareceram como os ratos da histria e para nunca mais voltar! "
"Ser que posso estar segura disso?", perguntara sua me, dando risada.
"Assim como a de ser uma feiticeira. Sabe muito bem como estou preso a voc por um elo indissolvel e por essa fora mgica que no quero dispensar de maneira alguma."
Lembrando-se do quanto um significara para o outro, Rosana pensou que talvez fosse isso justamente que o nobre necessitava: um elo mgico do qual no pudesse e nem 
quisessse escapar. Compreendeu tambm que por mais doce, boa e carinhosa que Carolina fosse, jamais conseguiria aquilo do marqus de Quorn .
Rosana tinha certeza de que logo aps o casamento, o marqus voltaria aos braos da sua sereia de cabelos vermelhos e olhos verdes, enquanto a pobre Carolina ficaria 
sozinha em casa.
Ouvira falar demasiadas vezes do tipo de vida que as esposas dos aristocratas levavam, enquanto os maridos cuidavam, fora do lar, do que denominavam "outros interesses". 
Tais casos eram comentados por toda parte. Tanto nos sales e nas alcovas, quanto nas cozinhas e nos estbulos. Havia um verdadeiro pblico para esse tipo de conversa.
- Como eu poderia ajudar Carolina? - perguntava-se a moa, meio desesperada, no vendo qualquer sada.
20
Rosana chegou at a sebe que limitava as propriedades do duque e dos Fairley e comeou a olhar para os lados,  procura de Patrick.
O rapaz no s treinava os cavalos de seu pai, como tambm supervisionava o trabalho dos empregados. Ele prprio preferia, s vezes, fazer o servio em vez de mandar 
algum execut-lo.
Rosana comeou a imaginar como seu pai teria gostado desse tipo de trabalho, se dispusesse de dinheiro e terras suficientes para montar uma granja. O duque, porm, 
s lhe havia entregue poucos acres de campos ridos, nos quais o irmo trabalhava arduamente, para tirar o sustento da pequena famlia. Foi essse um dos motivos 
que o levaram a partir com sua me para Londres, onde iriam gastar o pouco dinheiro que possuam, divertindo-se.
" muito importante para todo mundo estar ocupado com alguma coisa a fim de no ficar pensando em bobagens", cogitava Rosana filosoficamente.
Ao chegar  granja, diante da imponente casa de tijolos vermelhos, avistou Patrick saindo da floresta. A moa esporeou o cavalo e galopou em sua direo. Quando 
Patrick a viu, foi ao seu encontro e perguntou, muito surpreso:
- O que voc est fazendo aqui, Rosana? Quase sem flego a jovem explicou:
- Carolina quer v-lo imediatamente, pois  assunto de muita importncia.
- Mas o que aconteceu? - perguntou-lhe o moo, assustado.
- Creio que ela prefere contar-lhe pessoalmente.
- Por favor, Rosana, se  o que estou pensando, diga-me logo, pois assim terei mais tempo para tentar encontrar uma soluo.
Rosana hesitou um pouco, mas acabou contando:
- Carolina est perplexa e muito infeliz, porque o duque lhe disse que o marqus de Quorn  vai chegar e pretende pedi-la em casamento.
Patrick deu um profundo suspiro. Atnito, exclamou:
- O marqus de Quorn ? No pode ser verdade!
21
- Mas !
- Como poder ela se casar com um homem?. Bem que eu j temia isso, quando Carolina foi a Londres, mas jamais pensei no marqus, quando havia tantos outros moos!
- Eu tambm acho isso, mas voc sabe,  justamente o tipo de casamento que a me deseja para ela - acrescentou a jovem, desanimada.
-  claro, apesar de que, sem dvida alguma, a duquesa preferisse o prprio prncipe regente, se ele j no fosse casado.
O tom amargo na voz de Patrick fez com que Rosana o prevenisse:
- Por favor, no deixe Carolina se sentir ainda mais infeliz. Voc sabe o quanto ela o ama.
- E o quanto eu a amo!... E, no entanto, tenho tanta chance de me casar com ela, como de ir  lua!
Depois de um curto silncio, cavalgando lado a lado a moa disse:
- Desistindo com essa facilidade, voc est fraquejando. Nos contos de fada, o prncipe sobe s mais altas montanhas e mergulha nos mais profundos mares ou mata 
o drago para salvar sua amada.
- , mas isso s acontece, como voc mesma disse, nos contos de fada - depois de um momento, porm, ele acrescentou: - Voc disse "salvar"? Est querendo dizer que 
eu deveria salvar Carolina?
- Ora, isso voc mesmo deve saber. Por tudo que ouvi a respeito do marqus de Quorn , acho que no existe um homem menos indicado para ser marido de Carolina.
- Voc tem toda a razo! Claro que tem razo! Mas o que posso fazer? Como poderei salv-la?
- Ah! Isso eu no posso dizer. Voc sabe, meu pai casou-se com minha me contra a vontade do duque, da duquesa e da famlia Bruntwick inteira. E o prprio embaixador, 
pai da minha me, no gostava nem um pouco dos ingleses. Ele fez o que pde para evitar aquele casamento. E, no entanto, meus pais foram to felizes!
22
com esse argumento, a expresso de Patrick se modificou e ele exclamou:
- Muito obrigado, Rosana, no esquecerei do que acabou de me dizer. Onde devo encontrar Carolina esta noite?
- No lugar de sempre, s sete e meia. E tenho de me apressar agora, seno chegarei muito tarde ao castelo!
- Obrigado por ter vindo me avisar! - gritou o moo. Mas Rosana j estava galopando e no respondeu.
Ao chegar ao castelo, subiu correndo pelas escadas dos fundos, rezando para que a tia no tivesse sentido a sua falta. S, ento, suspeitou ter cometido um erro.
"Talvez devesse ter-lhe dito para aceitar o inevitvel", mas logo em seguida, lembrou-se de seu pai rindo e dizendo:
- Ningum ter perdido a corrida, enquanto outro cavalo no tiver atingido a faixa de chegada!
23
CAPITULO 11
Carolina saiu galopando to rpido quanto podia, evitando passar pela frente do castelo para no ser vista.
Quando entrou no estbulo, o cavalario disse em seu dialeto:
- Vai cavalgar to tarde?
- Estou precisando tomar ar fresco, mas, por favor, no diga nada a mame, seno ela ficar zangada comigo.
- No direi nada  duquesa. Ela no se interessa pelos meus
cavalos.
Carolina sabia que aos olhos dele isso era uma ofensa e, portanto, ela poderia estar sossegada.
Rosana a fizera esperar at que seus pais tivessem sado para um banquete. Ento, as duas moas jantaram no quarto de estudo, o que era bem mais agradvel, pois 
no precisavam trocar
de roupa.
Inquieta e apressada, Carolina perguntou:
- Posso ir agora?
Rosana fez-lhe um gesto para que se calasse, pois um criado vinha entrando e lhes trazia o jantar.
- Agora, pode ir se trocar, eu direi que voc estava com dor de cabea e no tinha fome.
Ela bem sabia que os empregados esperariam uma explicao pelo fato de Carolina no jantar. A vida no castelo era muito calma e vazia e qualquer mudana de rotina 
por pequena que fosse, despertava a curiosidade dos serviais.
Somente a fiel Emile saberia o que Carolina ia fazer, pois a criara desde pequena e a adorava. E a moa no tinha segredos
para ela.
- Oua, voc vai se meter em encrencas - dissera-lhe Emile, enquanto ajudava-a a vestir a roupa de montaria.
24
Eu j estou em uma encrenca - disse Carolina amargamente. - No quero me casar com o marqus, nem com nenhuma pessoa de Londres.
- Veja, queridinha, voc no vai conseguir nada, discutindo com sua me. Ela j decidiu que quer um grande casamento para voc.
- Sei disso, mas eu sonho  viver no campo com cavalos e cachorros e na companhia de algum que eu ame.
Emile no precisou perguntar de quem se tratava.
Pegando o bon e as luvas de cavalgar, Carolina desceu apressadamente as escadas do fundo que desembocavam junto  cavalaria. Era hora de jantar, felizmente, ela 
pde sair sem ser vista pelos empregados.
Sentia que tudo naquele castelo a ameaava e quanto mais galopava, mais vontade tinha de chegar logo perto de Patrick.
O jovem a esperava numa clareira, junto ao centro do bosque e, quando Carolina chegou, correu para ajud-la a desmontar. Durante um rpido instante os dois se olharam 
sem falar nada, mas logo, no se contendo mais, Carolina atirou-se nos braos do rapaz e desatou a chorar.
Abraando-a carinhosamente e, com voz macia, ele procurou acalm-la.
- No chore, minha querida. Por favor, no chore assim.
- No aguento mais! No vou deixar voc. Mas o que posso fazer? Papai e mame nunca vo me dar ouvidos.
Patrick apertava-a cada vez mais, como se fosse essa a nica forma de confort-la. Conduziu-a at um tronco abatido, onde "os dois se sentaram. Carolina nunca o 
vira to plido e srio. Ele tomou suas mos e, olhando-a bem dentro dos olhos, perguntou
- Carolina, voc tem certeza absoluta de que no quer se casar com o marqus?
De forma quase agressiva, ela contestou:
- Como pode me perguntar uma coisa to boba? Eu o odeio e ele nem quer se casar comigo. e se eu tiver de aceit-lo. acho que. me matarei!
A sua fala era quase histrica. Patrick jamais a vira assim
25
e acabou quase machucando os dedos da moa, de tanto apert-los, em sua aflio. Afinal, falou, aparentando calma:
- Oua-me, querida, eu tenho uma ideia, mas tenho receio de express-la.
Carolina levantou os grandes e brilhantes olhos inquiridores e Patrick s pensou em como algum podia ser to bonita. Os clios estavam molhados e lgrimas ainda 
escorriam pelas faces rosadas, ao passo que os lindos cabelos soltos brilhavam aos ltimos raios de sol. Estava to bela que Patrick tinha vontade de tom-la em 
seus braos e beij-la de forma que no houvesse necessidade de palavras. Mas, em vez disso, perguntou temeroso:
- Voc me ama o bastante para fugir comigo?
Durante um instante, ela no respondeu. Estava surpresa por no ter pensado antes naquilo.
- Fugir. com voc?
- Sei que no deveria propor-lhe isso, pois haver um grande escndalo e uma ciso entre nossas famlias. No consigo, porm, encontrar outra soluo para podermos 
ficar juntos.
- Mas acredita realmente que ns poderamos fugir e... casar, antes que algum possa nos deter? - perguntou ela, hesitante.
- Ser difcil, naturalmente. Seu pai, com certeza, ir tentar anular o casamento. Teramos de nos esconder muito bem.
- Mas eu seria sua mulher?
- Sim, claro, voc seria minha esposa.
Enquanto Patrick falava, a fisionomia de Carolina ia se alterando e seus olhos ganhavam luz, enquanto as lgrimas os eclipsavam.
- Ento fujamos, imediatamente. hoje... ou amanh. to cedo quanto possvel!
- Querida,  isso mesmo o que voc quer? - perguntou Patrick, puxando-a para si e beijando-a apaixonadamente, at sentir que, estremecendo, ela correspondia totalmente 
 sua paixo.
Ento, resolutamente, ele alargou os braos e recuou para poder olh-la bem nos olhos.
- Temos de planejar tudo com extremo cuidado.
26
Mas eu estarei com voc... e ns poderemos. casar?
Estou rezando para que venhamos a conseguir isso. Ser,
porm, difcil. No poder haver falha alguma em nossa fuga seno vo recaptur-la e no permitiro que nos vejamos jamais.
Desesperada, Carolina se agarrou a ele, dizendo:
Eu tenho de ficar com voc. eu tenho! E voc sabe.
eu jamais amarei outro homem!
- Minha querida, meu amor - disse Patrick. Porm controlando-se, perguntou: - Quando o marqus chegar?
- Depois de amanh. Patrick estremeceu.
- To cedo?
- Ele vem para a Corrida de Obstculos - confirmou Carolina.
- E naturalmente vai ganh-la. Ningum tem cavalos como os dele.
- Poderemos fugir. antes que ele chegue?
- No vai ser possvel e, justamente por isso, voc ter de ser muito esperta e levar a cabo um papel muito difcil.
Olhando-o, amedrontada, ela perguntou:
- O que eu devo fazer?
- Estive pensando enquanto a esperava. Em menos de uma semana, seria impossvel conseguir uma licena especial que nos permitisse casar em qualquer lugar e, ao mesmo 
tempo, obter o dinheiro necessrio para nos manter, enquanto estivermos escondidos.
- Uma semana  muito tempo! - exclamou Carolina. At l o marqus ter feito o pedido.
- Eu sei, mas voc dever dizer a seus pais que quer se casar com ele. E quando fizer o pedido, voc deve fazer de conta que concorda.
- Ento. eu terei de aceitar. a proposta de casamento?
- Minta o mnimo possvel, mas faa o marqus acreditar que voc est pronta a se casar com ele.
- Mas eu vou ficar com medo.
- No precisa temer nada, voc sabe que no se casar com
27
ele, porque eu estarei arranjando tudo para podermos ficar juntos para sempre.
Dando um grande suspiro, Carolina concordou:
- Farei tudo exatamente como voc me disser. Entusiasmado, Patrick falou:
- Tenha sempre em mente que eu te amo, minha querida. vou mover cus e terras a fim de que nunca se arrependa de ter trocado a posio que teria ao lado do marqus 
de Quorn , para ser minha mulher.
- Eu s desejo estar a seu lado e faz-lo muito feliz - disse Carolina, com simplicidade.
Ele a olhou cheio de ternura, dizendo:
- O destino parece estar a nosso favor. Meu pai recebeu hoje a notcia de que seu irmo mais novo, meu tio, est  morte.  um homem muito rico e como no queria 
se casar, afirmou sempre que eu seria o seu herdeiro.
- Eu me casaria com voc, de qualquer maneira, pobre ou rico - disse Carolina imediatamente.
- Eu te adoro por me dizer isso, minha flor, mas ser bem mais fcil se tivermos dinheiro suficiente, para no termos de depender de meu pai.
- E voc acha que ele ficar zangado. se fugirmos?
- Sim, isso vai aborrec-lo muito. no que ele tenha alguma coisa contra voc, mas aprecia manter um bom relacionamento com seus vizinhos. Voc sabe, o seu pai  
muito importante no Condado e poderia tornar as coisas bem difceis para o meu.
- E voc vai ficar triste com isso, no ?
- Eu s ficarei muito triste se perd-la. Nem posso imaginar como seria minha vida sem voc, principalmente se souber que est casada com outro homem.
- Seria o meu fim tambm! Oh, Patrick, ajude-me a escapar desta situao. e que ningum nos encontre antes que seja tarde demais para qualquer impedimento!
- E  o que pretendo fazer - disse o moo resolutamente. Olhando carinhosamente para ele, Carolina teve a certeza
de que nunca o vira to decidido e amadurecido. Ela o conhecera 
28
desde criana e os dois tinham crescido juntos, mas s agora via nele um verdadeiro homem, disposto a proteg-la e a quem ela obedeceria, pois respeitava sua inteligncia 
e seu carter.
- Diga-me o que devo fazer.
- Vai ser difcil, mas voc conseguir. Volte agora ao castelo e mantenha uma atitude natural, assim todos pensaro que est muito satisfeita em se casar com o marqus 
e com a posio que vai ler na sociedade como sua esposa.
Carolina suspirou, porm Patrick continuou a falar com firmeza:
- Amanh no poderei me encontrar com voc, pois vou a Londres a fim de arranjar uma licena especial.
- No seria perigoso?
- Esses assuntos so estritamente confidenciais, mas para evitar risco, no darei o seu ttulo. Voc tem algum outro nome, alm de Carolina?
- Sim, naturalmente. Fui batizada "Maria", em memria de Maria Brunt, que dizem ter sido lindssima.
- Ah! Certamente no era mais bonita do que voc! - disse Patrick em tom carinhoso e quente.
Por um momento eles se esqueceram da situao difcil que enfrentavam.
- Ns partiremos logo que eu tenha em mos a licena e o dinheiro suficiente para nos mantermos escondidos at que todos tenham aceitado nosso matrimnio.
- Consiga isso rapidamente. muito. muito rapidamente. Para que eu no tenha de perd-lo para sempre. Seria uma desgraa!
- Se Deus quiser, isso no acontecer, pois eu tenho muito mais receio de perder voc!
Trocando abraos e beijos com muita paixo, esqueceram-se do tempo e quando deram acordo de si, perceberam que a noite estava chegando com um cu todo estrelado.
- Oua, meu bem, agora voc precisa ir, est ficando tarde.
- Mas eu quero ficar com voc.
29
- Ficar comigo para sempre, quando estivermos casados. Querida, tem certeza de que no vai mudar de ideia?
- Como poderia mudar? Sou inteiramente sua. Sempre fui e nem sequer deixaria outro homem tocar em mim - e escondendo o rosto em seu peito, acrescentou: - Em Londres. 
alguns dos moos com quem dancei, tentaram beijar-me, mas eu sabia que no sentiria por nenhum deles. o que sinto por voc.
Os braos de Patrick apertavam-na tanto que ela mal podia
respirar.
- Fiquei preocupado com isso, quando voc foi para Londres e s eu sei como essa ideia torturou-me todo esse tempo!
- Ah, voc no devia ter sofrido assim. Eu no via a hora de voltar para c e estar novamente em seus braos.
- Eu adoro voc e passarei a minha vida, tentando faz-la
muito feliz.
- Eu serei feliz, como sou agora. Porm eu estava muito
preocupada, at voc ter essa ideia de fugirmos.
Patrick no respondeu, levou-a at o cavalo, deu-lhe mais um rpido beijo e f-la montar.
- Conte a Rosana o que planejamos, mas no deixe escapar nenhuma palavra para outra pessoa. Voc sabe, as paredes tm ouvidos e a tagarelice viaja nas asas do vento.
- Pode ficar descansado, tomarei todo o cuidado.
Patrick cavalgou o prprio animal e eles seguiram, lado a lado, at avistarem o castelo. Pararam e o rapaz, tomando a mo de Carolina, beijou-a apaixonadamente, 
mas temeroso de ser visto foi breve, sorriu e disse:
- Boa noite, meu amor, minha querida! Lembre-se apenas de que eu a amo muitssimo e voc no precisa temer mais nada.
- Eu tambm te amo! - murmurou Carolina.
Achando que era tempo de recolher-se, ela tocou seu cavalo e seguiu bem devagar pelo parque at a cavalaria.
com muito cuidado foi subindo as escadas laterais e, chegando ao patamar, correu para o quarto da prima que j a esperava,
inquieta.
- At que enfim voc chegou! - exclamou Rosana. Estava ficando preocupada.
Olhando para a prima, Rosana percebeu que nunca a vira to feliz em toda sua vida.
Oh, Rosana, como a vida  maravilhosa!
Sentando-se aos ps da cama da prima, contou-lhe bem baixinho tudo o que Patrick planejara.
O marqus chegou ao castelo s cinco horas em ponto, conforme planejara. Como hspede dos duques, achava que o melhor momento para chegar seria um pouco antes da 
hora de se vestir para o jantar. Tempo exato para uma curta conversa.
Assim costumava planejar tudo em sua vida, at os mnimos detalhes. Quando a carruagem, puxada por quatro garbosos cavalos, chegou aos portes de ferro batido, trabalhado, 
do castelo de Bruntwick, puxou do bolso um lindo relgio de ouro.
Os ponteiros marcavam trs minutos para as cinco horas.
O lacaio, que o acompanhava h muitos anos, j acostumado aos hbitos do marqus, comentou:
- Na hora exata, meu senhor!
O marqus no respondeu, mas sorriu, enquanto olhava para o castelo, no fim da alameda.
Era uma construo slida e impressionante, com o braso do duque preso ao portal de entrada, mas comparando-a com seu prprio castelo, em Buckinghamshire, o marqus 
achou-o um amontoado de encaixes acrescentados atravs de vrias geraes.
A manso que levava seu nome fora completamente reformada e redecorada por seu bisav cem anos antes, e era um exemplo perfeito do mais puro estilo de Palladio.
Apesar da longa viagem, os cavalos cobriram aquela alameda em poucos instantes, e o marqus desceu da carruagem com toda elegncia e pose diante da porta do castelo.
Um pajem colocara um tapete vermelho, que cobria os degraus de pedra e o mordomo aguardava o insigne hspede no topo da escada, para lhe desejar as boas-vindas e 
conduzi-lo at a Presena de seus amos. Quando o marqus entregou as rdeas Para seu lacaio, disse-lhe em voz baixa:
Logo que chegar  estrebaria, veja se meus cavalos chegaram
31
 em bom estado e se esto sendo adequadamente preparados para a corrida de obstculos de amanh.
- Sim, eu cuidarei disso, meu senhor.
Ento, a carruagem se afastou sem pressa alguma e, com ar de dignidade autocrtica, o marqus subiu os degraus em direco  porta do castelo.
Quando tirou o chapu e o estendeu a um pajem, no hall da entrada, no podia imaginar que estava sendo minuciosamente observado por entre as traves do corrimo. 
Era Rosana que procurava captar todos os pormenores do ilustre senhor.
Enquanto o observava, ela s estranhava ser ele exatamente igual  ideia que fizera anteriormente, pelas descries que ouvira.
O cavalheiro era elegante e at simptico, talvez o homem mais atraente que j vira. Compreendeu, imediatamente, por que atemorizava Carolina.
Seu olhar era penetrante e possua uma leve expresso de dureza, enquanto o contorno firme da boca apresentava um ricto quase cruel. A seguir a moa apreciou sua 
extrema elegncia e a forma complicada do lao de sua gravata.
A casaca, bem ajustada, no tinha uma dobra e a cala bege combinava com as botas lustrosas e de um tom mais escuro.
Seguindo-o com o olhar, enquanto ele percorria o hall em direo ao salo vermelho no qual o duque e a duquesa o aguardavam, Rosana j intura a sua personalidade.
O marqus provocara nela vibraes estranhas, como se tivesse chegado de outro planeta. Procurando controlar-se, Rosana acusou sua imaginao de ser temerria: tratava-se 
apenas de um homem, ainda que fora do comum.
Quando ele penetrou no salo vermelho, a moa saiu de seu esconderijo e correu escadas acima, para o quarto de estudos.
Carolina estava  sua espera e perguntou aflita:
- Ento, voc o viu?
- Sim, e acho que sua descrio dele foi muito boa.  arrogante, e acho que domina todo mundo, especialmente as mulheres.
E se eu no conseguir escapar dele? - murmurou Carolina, temerosa.
Voc no deve pensar assim. Deve imaginar que tudo vai dar certo. Se de fato desejamos alguma coisa e rezamos para que acontea, nossos desejos se tornaro realidade.
Enquanto falava, Rosana refletia que, desde que chegara ao castelo, desejara evadir-se. No vira, porm, nem suas preces, nem seus desejos serem atendidos.
Lembrou-se, ento, que tinha de apoiar Carolina naquele momento e, por isso, continuou num tom mais enftico:
- Concorde com tudo que lhe for sugerido e tente parecer feliz.
- Eu estou com medo. muito medo! Oh, Rosana, venha comigo l para baixo! - implorou a jovem.
Rosana deu uma risada e acrescentou, em tom amargo:
- Imagine s como sua me ficaria furiosa se eu aparecesse no salo!
- Mas eu sou capaz de fazer uma confuso total, sem voc.
- Lembre-se de Patrick, do quanto voc o ama e de que ningum mais interessa a voc! - falou Rosana firmemente.
- Eu vou tentar - disse Carolina docilmente. Porm logo comeou a tremer, quando um pajem veio avisar:
- A presena de minha senhora est sendo solicitada no salo vermelho, imediatamente!
Carolina empalideceu tanto, que Rosana receou que ela fosse desmaiar. Acompanhando-a at a porta, ainda falou baixinho a seu ouvido:
- Patrick, pense em Patrick, como ele est pensando em voc neste momento. - Ela sabia que a meno do nome do jovem encorajaria Carolina, que comeou a descer as 
escadas de cabea erguida.
Rosana voltou ao quarto de estudos para esperar e, vendo o livro que estivera lendo, ainda aberto, comeou a pensar se tudo que queria saber sobre a vida estaria 
em volumes como aquele.
Ela se entusiasmara e emocionara-se com as tramas das novis de sir Walter Scott. Vivera as situaes de suas heronas,
33
sofrendo e amando como elas aparentavam sofrer e amar, nas histrias do bardo escocs.
Dirigiu-se  janela para ver o pr-do-sol, enquanto pensava como sua vida assemelhava-se a um carto-postal: constituda mais de coisas do que de sentimentos; de 
trivialidades mais do que de emoes.
E, de repente, sem querer, comeou a sentir inveja de Carolina, coisa que nunca lhe acontecera anteriormente.
Carolina, ao menos, estava vivendo dramaticamente e se fosse realmente corajosa para fugir com Patrick, estaria se portando como a herona de uma novela e no como 
a sbria, quase montona, filha de um duque muito prosaico.
"Ela  feliz, muito feliz em ter Patrick", pensou Rosana.
Depois de um instante, ficou envergonhada por no se sentir contente com a felicidade de Carolina, em vez de estar pensando apenas em si mesma. Para Rosana, aqueles 
dez minutos de ausn cia de Carolina pareceram uma eternidade. Quando esta voltou estava to amedrontada que Rosana preocupou-se:
- Est tudo bem?
- Acho que sim. Oh, Rosana, ele me amedronta!  ameaador. que nem um bicho-papo dos contos de fadas. Se levar me embora, como  que Patrick vai conseguir me salvar? 
comentou a jovem desconsolada.
- No se preocupe, Patrick vai salv-la. E no se esquece da sua recomendao: faa de conta que est gostando do marqus e que deseja ser sua mulher.
- Eu prefiro morrer a casar-me com ele! H algo na sua forma de me encarar, como se eu fosse um verme debaixo do; seus ps. Tenho ainda a impresso de que me despreza 
e apenas est me usando para seus fins.
- Se for realmente isso que ele est fazendo, ento as coisas ficam bem mais fceis - disse Rosana calmamente.
- Por qu? - perguntou Carolina.
- Porque se no est apaixonado por voc, no vai perceber nada. Um homem apaixonado teria o pressentimento de qu voc gosta de outro.
Por um instante, Carolina ficou examinando aquele pensamento e disse:
Voc  to sensata, Rosana. Faz-me sentir mais corajosa.
Se voc fugir com Patrick vou consider-la a pessoa mais
valente que j conheci.
Realmente? Eu s sou corajosa porque Patrick me ama.
E  isso que importa. Agora, v trocar de roupa e procure
parecer o mais atraente possvel, pois de outra maneira o marqus poderia mudar de ideia.
- Mas  isso que eu quero.
Rosana sacudiu a cabea negativamente.
- No, isso seria um erro. Se no fosse o marqus sua me encontraria outra pessoa igualmente importante e a talvez no fosse to fcil, como espero que seja agora, 
para Patrick levar voc embora.
Refletindo um pouco, Carolina achou que sua prima tinha razo e concordou em vestir um dos vestidos mais belos que trouxera de Londres.
Era um vestido de gaze branca, todo enfeitado no pescoo e na bainha, com florzinhas cor-de-rosa, que lhe davam um aspecto juvenil. Rosana
 colocou-lhe ainda um raminho de rosas para prender-lhe os cabelos e um colar de prolas, que recebera de presente do pai no ltimo aniversrio.
- Voc est linda, minha querida! - exclamou Rosana, entusiasmada.
- Eu bem que gostaria que Patrick me visse assim!
- Tenha sempre em mente que logo mais ele a ver todos os dias, pelo resto de sua vida.
- No consigo pensar em nada mais alm disso - confessou a moa.
A seguir, sabendo que seria um erro Carolina atrasar-se para
O jantar, Rosana acompanhou-a at o patamar da escada e ficou admirando sua beleza. Ao passar por um dos grandes espelhos Pendurados na parede do corredor, olhou 
para si mesma. Usava um dos vestidos que Carolina ia dispensar antes de ir para Londres. J estava muito usado, pois Carolina vestira-o bastante.
35
Alis, ela s possua os vestidos velhos de Carolina, pois as roupas que usara, antes do luto do pai, j no lhe serviam mais.
E a duquesa sempre dizia que isso seria o mximo que receberia e a obrigara a retirar qualquer coisa que ainda enfeitasse um pouco as vestimentas.
Em geral, Rosana no se importava muito com as palavras da tia e nem com sua prpria aparncia, mas naquele espelho viu-se vestida com o velho traje de Carolina 
e ficou triste.
Ela sabia como se parecia com a prima e, principalmente, com a prpria me, e que era muito atraente. Dando uma risadinha, pensou ainda que s em sonhos trajaria 
lindos vestidos e, portanto, no adiantava ficar imaginando coisas.
Rosana deitou-se, e ficou lendo o ltimo captulo de Ivanhoe, at Carolina voltar.
Ps, ento, o livro no colo e recostou-se no travesseiro para melhor ouvir as novidades. A prima fechou a porta, sentou-se a seu lado na cama e, quase num murmrio, 
contou:
- Ele fez o pedido... e deseja que o casamento se realize. dentro de dez dias!
Olhando-a, incrdula, Rosana s conseguiu dizer:
-  inacreditvel!
- Deu como desculpa para toda essa pressa sua partida para Paris a servio do prncipe regente, e disse que imaginou como seria bom se passssemos a lua-de-mel l!
Carolina falava como se no estivesse conseguindo articular as palavras e Rosana perguntou:
- Certamente tia Sophia no concordou.
- Ele j tinha falado antes com papai e mame, e eles no s assentiram como, tambm, acharam uma tima ideia eu ir a Paris. Combinaram ainda que a cerimnia ser 
aqui no castelo Bem simples, apenas com a famlia e alguns amigos e parentes nossos e do marqus, que possam vir de Londres.
- Ele deve estar numa encrenca bem pior do que imaginamos - acrescentou Rosana, pensativa -, para precisar casar to rpido!
36
Tenho de falar imediatamente com Patrick! - exclamou
Carolina.
Voc o ver amanh, na corrida de obstculos. Mas eu
lhe aconselho a no conversar com ele na frente dos outros. Voc tem de ser muito cuidadosa! Se algum vir vocs trocando olhares, vai perceber que esto apaixonados!
- Ns temos de fugir no fim desta semana. ou, no mximo, no incio da prxima!
- Naturalmente! - concordou Rosana.
Naquele instante, a porta do quarto abriu-se, repentinamente, para dar passagem  duquesa. Durante um momento Rosana achou que a tia teria ouvido o que a filha dissera.
Porm, para surpresa das moas, a nobre dama estava toda risonha:
- Logo imaginei que voc estaria aqui, contando as boas novas para Rosana!
Nervosamente, Carolina levantou-se.
- Sim, mame.  isso mesmo. eu estava contando tudo a Rosana.
- Voc  uma menina de sorte! E apesar de parecer extraordinrio ter de se casar to rapidamente, compreendo o desejo do querido marqus em querer lev-la para Paris.
- Sim, mame, realmente.
E a duquesa continuou em tom animado.
- Naturalmente isso nos vai dar muito pouco tempo para comprarmos seu enxoval.
- Meu. enxoval? - perguntou Carolina estupidamente.
- Sim, voc no pode se casar sem ter um. E, levando em considerao a posio do seu futuro marido,  importante que suas roupas sejam muito finas e bonitas. Eu 
sempre sonhei que voc teria de ser a noiva mais linda do mundo, por isso seu vestido de noiva tem de ser sensacional! com toda essa pressa vamos comprar as roupas 
prontas que encontrarmos em Londres, enquanto o restante ser feito quando vocs voltarem  Inglaterra.
Carolina no dizia uma palavra, s olhava feito um coelhinho esPantado para sua me.
37
Prevendo o que a tia ia dizer, Rosana prendeu a respirao.
- Voc e eu partiremos amanh, o mais cedo possvel, para Londres. Voc no poder assistir  corrida de obstculos, mas isso agora no importa, pois o marqus disse 
que partir assim que a corrida terminar.
- Ns vamos. para Londres. mame?
- No seja tola, Carolina. No poderemos escolher suas roupas sentadas aqui no castelo - disse a duquesa, asperamente. Voltando-se para Rosana, disse:
- Seria melhor voc se levantar e ajudar Carolina a arrumar a mala. J  muito tarde para acordar Emile, porm ela e as empregadas podero terminar os preparativos 
amanh cedo.
- Sim, tia Sophia.
Voltando-se, a duquesa ainda acrescentou:
- E no v se esquecer de nada. Voc fica completamente no mundo da lua, quando se mete a ler esses livros, em vez de se ocupar com coisas mais prticas.
Olhando com desprezo para o livro saiu, dizendo:
- Seu pai e eu estamos muito felizes, Carolina, porque voc vai se casar com um homem muito importante. Quando estivermos em Londres, terei oportunidade de lhe explicar 
como voc deve se comportar ao assumir sua nova posio ao lado dele, nas cerimnias da Corte.
com um olhar cheio de satisfao, a duquesa saiu do quarto, fechando a porta atrs de si.
Nenhuma das moas falou, enquanto ouviam os passos pesados que desciam as escadas.
Ento, no aguentando mais, Carolina deu um grito, como se tivesse sido apanhada numa armadilha.
- Se eu for para Londres com mame. como poderei fugir com Patrick?
Ela estava to desesperada que Rosana se apressou em dizer:
- Voltar para c para o casamento e tenho certeza de que ele dar um jeito para tirar voc daqui, a tempo.
- E se mame me segurar l at o ltimo momento? Voc bem sabe como mame , quando escolhe roupas!
38
De qualquer maneira, voc vai ter de voltar - insistiu
Rosana.
Mas Patrick vai viajar, antes disso.
Prometo que vou procurar Patrick e, ainda que seja difcil, enviarei uma mensagem a voc. Naturalmente escreverei de maneira muito reservada e voc vai ter de ler 
nas entrelinhas. vamos fazer uma espcie de cdigo.
E se eu no entender e mame a ler?
- Vamos dar a Patrick o nome de um dos nossos cavalos ou de qualquer outra coisa. Deixe comigo, at amanh cedo vou pensar num modo.
- Mas eu no posso ir para Londres! - disse Carolina quase chorando. - Eu poderia ficar doente e portanto no me seria possvel acompanhar mame.
- Voc tem de ir, Carolina. No tem outro jeito. Porm precisa me escrever, dizendo o dia que vai voltar, para eu transmitir a notcia a Patrick, para que ele possa 
preparar tudo de acordo.
Vendo que a prima estava tremendo e a ponto de se debulhar em lgrimas, Rosana pulou da cama e, abraando-a, sentou-se ao seu lado.
- Oua, agora voc precisa ter coragem. Isso tudo so obstculos a serem superados, at que voc e Patrick possam ver-se livres do marqus.
- E se eles forem muito grandes. e eu no puder escapar. antes de me casar com ele?
- Voc vai escapar - disse Rosana firmemente. - Eu o sinto "no fundo da alma" como diria Emile. Tambm sinto da outra maneira, que papai sempre dizia que fazia parte 
da magia de mame.
- Voc quer dizer. clarividncia? - perguntou Carolina, com certo temor na voz.
- Mais ou menos isso, mas  antes uma espcie de instinto u impresso no meu ntimo, que me previne quando as coisas vo dar certo, apesar de todas as dificuldades.
Enquanto falava, ela lembrou de como, no passado, descobria de antemo se as coisas iam dar certo ou errado.
39
Quando sua me fora picada por uma cobra, durante um passeio, a menina -soube que ela iria morrer, apesar de os mdicos dizerem que a picada no era to grave assim.
Soubera, tambm, mesmo no querendo encarar o fato, quando seu pai saiu para caar num dia frio de inverno, dizendo que voltaria logo, que ele no retornaria.
Ela fora at a cavalaria e dissera:
- Est um dia to feio para caar. No v, papai! Por favor, fique aqui!
- com o tempo ruim ou no eu necessito desse exerccio. Alm do mais, queridinha, eu prometi ver uns amigos. Se eu demorar j sabe que fui tomar um drinque com eles.
Ele a beijara e, saltando para a sela, ainda acrescentara:
- Gostaria que voc viesse comigo, mas cavalgaremos juntos amanh cedo. Cuide-se bem.
Era o que ela prpria queria ter dito a ele, quando partiu.
Ela ficara olhando-o se afastar e de alguma forma estranha sabia que ele estava saindo da sua vida e que, no dia seguinte de manh, no estariam mais juntos.
Agora, abraando Carolina, ela disse em tom convincente:
- Eu lhe prometo, Carolina, haja o que houver, mesmo que os obstculos sejam os mais difceis, voc vai atingir o ponto de chegada e se casar com seu amado.
- Voc tem certeza. certeza mesmo? Voc pode ver com seu "olho mgico". que tudo vai dar certo?
- Meu "olho mgico" nunca mente. Voc jamais ser marquesa de Quorn  mas, sim, esposa de Patrick Fairley.
Carolina atirou-se nos braos dela e beijou-a muitas vezes.
- Isso  o que eu mais quero na minha vida, acredito em voc, Rosana. realmente acredito em voc!
40
CAPTULO 111
Rosana esperou at ver a carruagem desaparecer na estrada levando Carolina, a duquesa e Emile. Depois subiu correndo para vestir o traje de cavalgar. Ela sabia que 
estava negligenciando as instrues da duquesa que, antes de partir, chamara-a no seu quarto e, mostrando-lhe um monte de roupas sobre uma cadeira, recomendou:
- Enquanto eu estiver fora, conserte tudo isso. Ficarei muito zangada se o servio no estiver pronto, quando eu voltar.
Ela falava naquele tom rspido e severo, demonstrando sua averso pela sobrinha, sentimento esse reforado pela expresso dos olhos.
Rosana no disse nada e, depois de um breve momento, a tia acrescentou:
- Estive pensando no que vai fazer, quando Rosana se casar e for embora. Voc vai dedicar-se inteiramente  costura. No permitirei mais que desperdice seu tempo 
lendo e cavalgando. Afinal, voc tem de contribuir com alguma coisa, para compensar o dinheiro que seu tio gastou com as dvidas do seu pai, e reparar os estragos 
que a famlia e os parentes de sua me fizeram, ferindo e matando nossos soldados e marinheiros, durante quinze anos.
Rosana teve de fechar as mos, apertando-as com toda fora, para que o protesto, na ponta da sua lngua, no sasse.
Nenhum parente de sua me servira nos exrcitos de Napoleo. Seu av desaprovava a guerra e desprezava a nova aristocracia que o general da Crsega criara, em vez 
do "velho regime", ao qual toda a antiga aristocracia da Frana pertencia. Sabendo que seria intil dizer isso  duquesa, principalmente porque ela odiava todos 
os franceses, Rosana ficou quieta.
41
Surpresa com esse silncio, a duquesa acrescentou:
- Que tudo esteja cuidadosamente consertado, quando eu voltar, seno voc ser castigada por sua negligncia.
Dizendo isso, saiu agitadamente do quarto e desceu as escadas, indo ao encontro de Carolina que a esperava no hall de entrada.
Rosana percebeu a preocupao no olhar de Carolina, que sofria muito com essa partida inesperada, sem se despedir de Patrick.
Ao lhe dar o beijo de despedida, Carolina falou baixinho:
- Escreva-me logo que falar com Patrick, preciso saber o que ele est pensando de tudo isso.
Rosana achou arriscado responder, por isso s fez um aceno.
Quando a carruagem se afastou, Carolina ainda lhe deu um adeus.
O duque e o marqus foram receber os primeiros convidados que chegavam para a corrida de obstculos.
Sem se importar por estar negligenciando as costuras, Rosana decidiu que no deixaria de assistir  corrida. Vestiu a roupa de montaria e desceu para as cavalarias. 
Quase todos os pajens tinham j levado os cavalos para o ponto de partida da corrida, localizado no extremo norte do parque, onde rareavam as rvores e comeava 
a plancie coberta de relva.
Rosana cavalgou cuidadosamente, para no ser vista por pessoas conhecidas e escolheu um bom lugar, de onde pudesse ver a corrida. Bem na sua frente estava o ltimo 
obstculo e, um pouco alm, a linha de chegada. Alguns arbustos protegiam-na de ficar muito  vista.
Ela sentia que Carolina no estivesse ali, para poderem comentar e rir de alguns participantes e admirar a classe e o requinte de outros.
Os cavalos movimentavam-se nervosamente junto  cerca de partida e ela viu o duque ocupado em pr um pouco de ordem naquela confuso. Ele estava irritado com os 
espectadores que circulavam com seus cachorros, cuja bulha fazia os cavalos empinarem-se descontrolados.
Naquele momento, o marqus aproximou-se do duque e vendo-o, 
42
ela percebeu que logo ningum deixaria de reconhec-lo. Pensou que Patrick tinha razo ao dizer que certamente ele seria o vencedor.
O nobre senhor cavalgava com elegncia um belo garanho negro. Rosana percebeu como seria difcil para qualquer concorrente, possuir um animal que pudesse arrebatar-lhe 
o prmio da disputa.
Do outro lado, avistou Patrick que montava um cavalo de boa raa, criado por ele prprio. Ele tinha a vantagem de conhecer o percurso, em forma de enorme ferradura, 
e de ter treinado, durante a ltima semana, uma dzia de vezes, como o tinham feito os vizinhos do castelo.
Havia uma ou duas figuras cmicas, proprietrios que sabiam no ter chance alguma de ganhar, mas que desejavam, mesmo assim, participar da festa.
Do alto da pequena colina, ela divertia-se, vendo tudo aquilo. Uma parte dos espectadores amontoava-se perto dos obstculos, enquanto outros juntavam-se nas linhas 
de partida, segurando bandeirolas.
Todos partiram! Foi uma arrancada s.
Rosana prendeu a respirao, quando ouviu o barulho feito pelos animais ao saltarem a primeira barreira. Ela prpria j saltara vrias vezes e, por isso, sabia que 
era preciso calcular bem o momento de incitar o animal. Por esse motivo, no se surpreendeu ao ver dois cavalos carem.
Um cavalo sem o jquei representa sempre grande perigo numa corrida e um deles foi a causa de mais uma queda no segundo obstculo. Outro cavalo sem jquei juntou-se 
ao grupo.
Os trs obstculos seguintes, mais fceis, foram ultrapassados sem maiores dificuldades. Rosana respirou aliviada, quando um dos cavalos desmontados afastou-se do 
grupo e foi dominado Por um escudeiro. O trecho seguinte era realmente difcil. Ali a Pista estava sempre mida, mesmo nos dias de sol. O marqus soube, entretanto, 
atravess-lo em grande galope.
Mesmo conduzindo seu garanho com rdea curta, permanecia ligeiramente  frente do resto do grupo.
43
Depois de quatro obstculos, alguns dos competidores deixaram a corrida, por ach-la muito difcil. Dois cavalos se recusaram saltar as barreiras e um deles jogou 
o cavaleiro por cima da sua cabea.
O grupo dos corredores havia diminudo sensivelmente, e o marqus j conseguira uma grande vantagem sobre os outros, seu corcel saltara os obstculos facilmente.
Rosana reconhecia que, excluindo seu pai, jamais vira algum cavalgar to bem como o marqus. Para ser bem objetiva, poderia dizer que ele era to bom quanto seu 
pai e que, naquele galope, parecia formar um todo com seu belo animal. Alis, s o fato de estar cavalgando uma tal montaria proporcionava ao cavaleiro uma sensao 
de onipotncia.
No podia ouvi-lo, mas tinha a impresso de que, quando Quorn 
 aproximava-se de um obstculo difcil, encorajava o animal falando-lhe baixinho, como seu prprio pai havia sempre lhe dito para fazer. Em certo momento, viu-o 
inclinar-se e dar umas palmadinhas no pescoo do cavalo, depois de ter ultrapassado uma barreira difcil e se desviado de um cavalo que barrava o caminho.
Mas quando faltavam apenas duas barreiras, o marqus foi alcanado por outro cavaleiro.
Rosana vibrou ao perceber que era Patrick! Ele estivera sempre um pouco para trs, mantendo rdea curta. Agora, entretanto, parecia estar soltando as rdeas, exatamente 
no momento que o nobre o fazia, e tinha a inteno de continuar assim at o fim da corrida.
Ela no podia ter certeza, mas o marqus parecia surpreso com o outro cavaleiro. A corrida, que at aquele momento fora um passeio para ele, transformava-se, afinal, 
numa competio
Os dois homens esforavam-se arduamente, apesar de o marqus no saber que tambm eram rivais em outro campo, dando tudo o que tinham: cada um determinado a ser 
o vencedor.
O ltimo obstculo foi ultrapassado sem uma polegada de distncia. A seguir, vinha uma longa extenso plana e descoberta at a linha de chegada.
A maioria dos espectadores j aguardava ali o vencedor e gosana ouviu o eco dos gritos de encorajamentos que lhe chegavam atravs do vale.
Os dois cavalos galopavam em grande velocidade, os torres de terra voavam para todos os lados. A moa sentia que aqueles dois homens tinham cada um dos seus nervos 
tensos, no esforo de vencer o outro.
Houve, ento, um trovejar de gritos e vozes que ecoou longe, quando os dois cavaleiros passaram pelo duque que os esperava no ponto de chegada.
Do lugar onde se encontrava, Rosana no podia ver quem vencera a corrida, mas ela desejava ardentemente que fosse Patrick, pois isso representaria um bom pressgio 
para ele e Carolina.
Apressou-se em chegar logo ao castelo para poder falar com Patrick, antes que ele fosse embora.
Pensando em um milho de coisas ela cavalgou rapidamente e entrou nas cavalarias. Tirou os arreios e a sela do seu cavalo e ia saindo, quando ouviu uma barulheira 
na outra extremidade. Havia vinte boxes naquela ala e ela percebeu que ali deveria estar algum cavalo nervoso que os jovens pajens no conseguiam acalmar.
Rosana foi seguindo em direo ao barulho e chegou aos boxes, onde ficavam os cavalos dos visitantes. A viu um animal quase to bonito como o garanho do marqus, 
que se empinava nas patas traseiras, impedindo que lhe fossem postos os arreios. Os cavalarios estavam nervosos e exaustos e o que segurava a rdea, muito plido.
- O que est acontecendo? - perguntou ela, com sua voz calma.
Os trs rapazes voltaram-se: eram desconhecidos dela.
-  este garanho que meu senhor comprou a semana passada - replicou o mais velho.
Ele parece bem bravo - observou Rosana, sorrindo.
No h como segur-lo, esta  a verdade! Meu senhor quis traz-lo, para o caso de no poder cavalgar o Conquistador, 
e no sei como vamos conseguir tir-lo daqui.
44
- O seu amo est pensando em cavalg-lo? - perguntou Rosana.
- No, senhorita, este  Vulco e ele deve lev-lo apenas para um passeio.
- Eu  que no vou correr esse risco. Ele me mataria e eu no quero morrer to cedo - protestou Jed.
- Mas vocs vo arrei-lo antes do almoo? - perguntou Rosana.
- So ordens do meu amo, pois ele quer partir logo depois de comer. E ns no podemos deix-lo esperando - disse um dos moos, enquanto os outros confirmavam com 
a cabea.
- Nosso amo vai ficar danado e ns estamos com medo, porque no conseguimos colocar os arreios, como a senhora est vendo - disse o outro moo.
- Deixe-me tentar - disse Rosana.
Os trs moos olharam-na incrdulos, como se no tivessem entendido direito o que a jovem dissera.
Ao v-la abrir a porta do boxe, o mais velho exclamou:
- No, senhorita, no pode montar o Vulco. Ele iria mat-la!
- No creio nisso - respondeu Rosana. - Fiquem calmos e quietos.
Ela entrou, falando mansamente, como vira seu pai fazer com os animais bravos que queria amansar.
- Por que voc est to nervoso? Ser que foi porque no o deixaram participar da corrida? Voc  to bonito e garboso que certamente a teria ganho facilmente. Haver 
outras corridas para voc competir mas, para isso, tem de deixar que eles o montem - assim ela continuou falando, sem se aproximar de Vulco, que a olhava desconfiado 
e com as orelhas em p, como se entendesse o que a moa lhe dizia. Prosseguindo naquele carinhoso tom de voz, que seu pai usava e que parecia encerrar certa magia 
irresistvel, foi se aproximando cautelosamente do belo animal.
Vulco foi se acalmando e nem recuou, quando Rosana comeou a lhe afagar o pescoo, o nariz e as orelhas. Ele estava gostando tanto que, no momento em que ela parou, 
ele se aproximou, sacudindo e inclinando a cabea como se pedisse novas carcias.
S ento, e continuando a usar o mesmo tom macio, ela disse:
D-me as rdeas!
Nervosamente, o pajem que as segurava, entrou no boxe e estendeu-as de longe.
Ela tomou-as com a mo direita, enquanto continuava a acariciar Vulco, com a esquerda. Ao passar as rdeas por cima de sua cabea, ela lhe disse:
- Voc no vai querer ficar aqui dentro num dia to bonito, no ? vou lev-lo para passear ao sol e vai ver como  muito melhor do que ficar aqui, escabujando em 
um lugar to pequeno, para um cavalo belo e forte como voc!
Colocadas as rdeas, ela fez com que Vulco se voltasse e conduziu-o para fora do boxe, passando pelo grupo que assistia a tudo aquilo espantado. S que em vez de 
trs homens, l estavam quatro e ela pde reconhecer o marqus que a olhava admirado.
Ignorando sua presena, Rosana passou pelo pequeno grupo, levando Vulco para o ptio. Sem parar de conversar com ele, f-lo parar l fora e pediu:
- Ponham a sela com cuidado.
Ela viu o animal ficar tenso, quando algum se aproximou para colocar a sela. Segurando com fora as rdeas para evitar que ele empinasse, viu que era o prprio 
marqus que colocava gentilmente a sela, como ela havia pedido.
Quando um pajem se aproximou para ajustar os arreios, o nobre virou-se para ela, perguntando:
- Quem  voc? E onde aprendeu a lidar de maneira to incrvel com um cavalo desses?
Rosana levantou o rosto e sorriu. com o sol brincando em seus cabelos soltos e to pequenina, ela parecia uma figurinha terea ao lado do enorme garanho.
Quorn  era to alto que ela tinha de virar a cabea para trs, a fim de encar-lo. Vendo a admirao em sua fisionomia, ela disse simplesmente:
46
- Vulco estava apenas se exibindo. Os cavalos percebem quando as pessoas esto com medo e isso os leva a desafi-las.
- Qual  seu nome? - perguntou o marqus.
- Rosana.
Ela no ia dizer mais nada, mas percebendo que o marqus estava esperando o sobrenome, acrescentou relutante:
- Brunt!
- Ah, um membro da famlia do duque! Eu no a vi ontem  noite. Talvez voc tenha chegado agora, de manh.
- No, eu moro aqui.
Naquele momento ela percebeu que estava falando demais com o nobre e que se a duquesa soubesse iria ficar furiosa, por isso acrescentou rapidamente:
- Vulco j est bem. Acho que o senhor mesmo deveria mont-lo agora e ensinar-lhe a se comportar.
- Voc est me instruindo? - perguntou o marqus zombeteiramente.
- Absolutamente, apenas fazendo uma sugesto. Queria tambm
 cumpriment-lo pelo seu desempenho na corrida de obstculos. - Sem poder conter-se, perguntou ainda:
- Quem foi o vencedor?
- Decidimos que foi uma corrida sem vencedor - explicou o marqus, percebendo o ar de satisfao no rosto de Rosana.
Ela entregou-lhe as rdeas, e acrescentou:
- A corrida foi muito excitante e acho seus cavalos maravilhosos!
Antes que ele pudesse dizer alguma coisa, ela voltou-se, e saiu correndo em direo ao castelo.
S quando chegou ao quarto, lembrou-se que deixara seu chapeuzinho na cavalaria. Ela o tirara com receio de assustar Vulco.
Atirando-se sobre a cama, pensou como fora bom dominar Vulco daquela maneira e, tambm, encontrar o marqus e falar
com ele.
Agora compreendia por que ele amedrontava Carolina e tambm aqueles que o serviam.
48
"Ele  realmente prepotente!", disse para si mesma.
Era como enfrentar um furaco ou uma imensa onda ou ainda, pensou ela sorrindo, enfrentar uma barreira to alta, quase impossvel de ser transposta.
"Ah, eu no deveria t-lo encontrado agora e no devo encontr-lo jamais, mas vai ser difcil esquec-lo", pensou ela.
Olhando pela janela, viu um grupo de cavaleiros entrando no castelo a procura do almoo, que fora preparado para eles, no Salo Grande.
Ela sabia com que capricho tudo fora feito durante as ltimas semanas: grandes pernis de veado da criao do prprio duque, cabeas de javali e leitoas, alm de 
numerosas pernas de carneiro, frangos, porcos gordos e trutas do lago.
Essa era uma festa essencialmente masculina, e alguns dos competidores no eram considerados suficientemente educados, para conversarem com a duquesa e muito menos 
com Carolina. Por isso, mesmo que a duquesa no tivesse ido para Londres, ela no teria visto o marqus na hora do almoo, mesmo que ele tivesse esperado para lhe 
dizer adeus antes de partir.
De repente, Rosana sentiu um impulso, tomar o lugar de Carolina, e ir para a sala de estar, onde o marqus se despediria do duque. Ela sentiu vontade de v-lo mais 
uma vez, para melhor gravar na mente suas feies.
Era difcil lembrar-se claramente de como ele era, pois, na ocasio, ela estivera com a ateno voltada para Vulco.
Ao mesmo tempo, achava interessante encontrar um homem com personalidade to forte, para dominar qualquer pessoa em cuja companhia se encontrasse. Lembrou-se ainda 
de sua fama duvidosa, que corria por todo o pas.
"Ele me parece muito severo e poderia chegar a ser cruel se isso lhe aprouvesse, porm, no com animais, s com pessoas", refletiu Rosana.
Lembrou-se das mulheres que haviam se suicidado por sua causa e das que tiveram o corao partido, por terem sido abandonadas, mas achou que elas deveriam ser fracas 
e inexpressivas, era bvio que uma personalidade assim forte deveria atrair outras 
49
mais fracas e que almejavam agarrar-se a ele comu crustceos ao fundo de um barco, como seu pai dissera certa vez.
"Como voc pode ser to rude a respeito de ns, pobres mulheres? perguntara sua me.
"Sendo mulher, voc deveria compreender isso. Existem aquelas que se agarram feito uma fera ao homem, a ponto de sufoc-lo e obrig-lo a libertar-se delas a qualquer 
preo."
"Acho que voc est arranjando desculpas para os maches, quando se tornam impiedosos e cruis."
Rosana sabia que seus pais gostavam de manter esses debates e que sua me conseguia assim estimular a mente do marido. s vezes, at parecia que voavam fagulhas, 
de um lado para outro, por cima da mesa. Depois de alguns instantes sua me soltava um lindo sorriso e dizia:
"Voc ganhou! Voc  inteligente demais para mim, querido. Devo admitir que sou uma pequena mulher, enquanto voc  um homem superior, dominante! 
"Sim, que vive aos seus ps, adorando-a. Voc sabe muito bem como consegue me enrolar no seu dedinho e fazer as coisas da maneira que quer! "
E beijando-a ele voltou-se para Rosana dizendo:
"Espero que voc esteja ouvindo e anotando tudo isso, minha pequena, para saber como uma mulher inteligente pode dominar um rei ou um mendigo."
"Voc sabe que isso no  verdade", contestava sua me, "e Rosana precisa aprender que uma mulher inteligente apenas toma o seu lugar  sombra do trono. Por outro 
lado,  muito mais fcil para ela conseguir atingir seu alvo por meio do amor."
Rosana achava tambm que isso era verdade, mas no caso do marqus, obviamente, isso j era demais, pois ele conseguia tudo com muita facilidade, e acabava se aborrecendo 
e jogando fora.
Assim refletindo, Rosana conclua que isso era amor, pelo menos no aquele que existia entre seu pai e sua me e que ela acreditava existir entre Carolina e Patrick. 
E esse tipo de amor no envelhecia nem murchava mas, ao contrrio, aprofundava-se e fortalecia-se de ano para ano.
50
Talvez o marqus nunca tenha encontrado uma mulher assim, pensou ela.
Entretanto, o que interessava mesmo era impedir que ele fizesse Carolina infeliz, como o fizera com tantas outras mulheres.
Teve a impresso de que ele jamais deixaria de intimidar Carolina e que mesmo a extrema doura da prima tambm no o atrairia por muito tempo.
O que ele realmente necessitava encontrar era uma mulher que o desafiasse, como Vulco o fazia, porque assim ele teria de domin-la. Por outro lado, ele s conseguiria 
esse domnio usando da magia que ela usara para tornar o animal obediente e dcil.
"Ora, para que estou perdendo tempo com isso?", pensou ela,
 censurando-se. "Quando o marqus for marido de Carolina, eu certamente no o verei mais e a culpa ser dele quando se sentir cansado e infeliz, por ser to prepotente."
O mais importante, naquele momento, era encontrar Patrick e contar-lhe tudo o que acontecera a Carolina. com muito cuidado para no ser vista, desceu at o hall 
e da subiu por uma escadinha que levava  Galeria dos Menestris. De l, atravs da balaustrada de madeira trabalhada, ela poderia olhar toda a sala de jantar, 
sem ser vista. Ao abrir a portinha da galeria ouviu um rudo de vozes e risos que vinha da grande sala. Ela deu uns passos at a balaustrada e, olhando para baixo 
viu logo o duque, sentado  cabeceira da enorme mesa. Quorn  estava  sua direita e, em frente, um pouco mais adiante, Patrick.
Os convidados se divertiam, conversando, rindo e servindo-se de tudo que lhes era oferecido em grandes bandejas de prata.
Rosana viu que o marqus comera e bebera muito pouco do que lhe fora servido, enquanto o duque, que certamente tivera uma manh muito agitada, apesar de no ter 
participado da corrida, estava abusando do Clarete. O garom enchia-lhe o copo a todo instante. Seu tio parecia estar de muito bom humor. Falava animadamente com 
o nobre convidado e, apesar de Rosana no poder ouvir o que diziam, teve a impresso de que
51
falavam sobre o casamento, mostrando-se ele muito contente pela perspectiva de vir a ter o marqus por genro.
Rosana tinha a impresso de que podia ler o pensamento daqueles que observava. Ento, desviou o olhar para o lugar de Patrick e o viu empurrar o prato com expresso 
aborrecida, como se no quisesse mais comer.
A certa altura, viu o marqus levantar-se. Parecia desculpar-se por ter de se retirar. O duque tambm ergueu-se, fazendo muitas mesuras. Caminharam juntos at a 
porta, quando os outros convidados, levantando seus copos, fizeram um brinde:
- Belssimo desempenho, Quorn ! Tudo de bom at o fim da estao! Ser o campeo em Doncaster!
- Muito obrigado a todos! Porm eu no confio em meus cavalos, enquanto eles no cruzam a linha de chegada!
Houve uma grande algazarra e todos riram com a resposta, enquanto o duque e o marqus afastavam-se.
Quando desapareceram, Rosana viu Patrick levantar-se tambm. com certeza, estava preocupado com Carolina. Provavelmente, ningum lhe contara que a jovem fora para 
Londres. Ele deveria estar espantado por no t-la visto, e estava imaginando que ela o aguardava no bosque.
Sem se apressar, com receio de encontr-lo no estbulo, o que seria um grande risco, pois algum os poderia ver ali conversando, Rosana foi at o lugar onde deixara 
seu cavalo, antes do almoo.
Ao passar pela porta da cavalaria viu que o marqus se aprontava para partir. Sua carruagem, descoberta e puxada por quatro cavalos garbosos, era prpria para grande 
velocidade. O nobre cavaleiro formava um todo com aquele belo conjunto e mais parecia um heri de romance.
Vulco, coberto por uma capa de veludo negro, era cavalgado por um pajem e parecia comportar-se muito bem. Apesar disso, Rosana percebeu que seu dono vigiava-o, 
para evitar que surgisse algum problema com o belo animal.
Depois que o pequeno grupo atravessou a ponte, chegando  alameda de carvalhos, que levava aos portes de entrada.
52
Rosana voltou  realidade e lembrou-se que devia encontrar patrick.
Selou rapidamente seu cavalo e saiu da estrebaria, antes que Os empregados dessem por sua presena.
Seguiu pelo caminho que ela e Carolina tantas vezes faziam, quando no queriam ser vistas, e foi direto para o centro do bosque, onde Patrick j a esperava. Veio 
aflito ao seu encontro, perguntando:
- Onde est Carolina? O que houve com ela? Pensei que fosse assistir  corrida.
Rosana esperou at prender a rdea de seu cavalo num velho tronco e a explicou:
- A duquesa j levou Carolina para Londres, a fim de comprar o enxoval.
- Jamais poderia imaginar isso! - exclamou Patrick.
- Ns tambm, at ontem  noite. Mas era pura tolice imaginar que a duquesa, tendo promovido o consrcio com o marqus, no exigiria que ela levasse um enxoval de 
rainha!
Patrick no sorriu, e muito srio disse:
- Eu estava com receio de no encontr-las, para lhes contar que meu tio faleceu a noite passada.
- Isso significa que voc tem de viajar?
- Sim, no mnimo por dois ou trs dias.
- Como Carolina tambm vai ficar fora durante esse tempo, mais ou menos, vou lhe escrever para que no se preocupe com voc.
- Ela estava preocupada comigo?
- Sim, e sentia-se to infeliz que me causou pena.
- Voc vai lhe escrever?
- Sim, bem reservadamente, em uma espcie de cdigo para que tia Sofia no possa entender, se encontrar a carta.
- Se puder, diga-lhe que a morte de meu tio vai ajudar-nos, Pois terei todo o dinheiro necessrio.
Depois de uma pausa, Patrick perguntou em tom diferente:
- Quando Carolina voltar?
- No sei bem, mas ela ficou de me escrever sobre o que
53
for planejado. Quando o verei novamente? Na prxima segunda-feira?
- Creio que estarei de volta no domingo  noite ou na segunda de manh. At l os funerais j tero terminado.
- Espero ter ento alguma boa notcia para voc.
- Muito obrigado, Rosana. Ah, voc assistiu  corrida? Ela sorriu, antes de responder:
- Foi um bom pressgio para vocs dois ter cavalgado to bem e a corrida ter terminado sem vencedor.
- Eu tinha vontade de mat-lo! - disse Patrick ferozmente.
- Posso compreender muito bem seu sentimento. Mas justamente por ele ser, sem dvida, o melhor cavaleiro  que foi maravilhoso a forma como voc o desafiou.
- De qualquer maneira eu gostaria de t-lo matado. E no que concerne a Carolina  o que pretendo fazer: vencer!
- Ah! Essa corrida voc certamente ganhar! E eu j disse a Carolina que o meu "olho mgico" prediz que vocs vo ser muito felizes.
- Obrigado, Rosana - disse Patrick, sorrindo pela primeira vez. - E quando ns estivermos casados, prometo-lhe que cui daremos de voc.
- De mim? - perguntou Rosana espantada.
- Ora, voc no pensa que todos ignoram como  maltratada pelos seus tios, no ?
- No, mas.
- Todos que conheceram seu pai amavam-no e  uma vergonha e um escndalo voc no ir a lugar algum e ser tratada como uma servial, em vez de ocupar o lugar que 
lhe  devido, como filha do seu pai.
O que Patrick disse foi to inesperado que Rosana no conseguiu conter as lgrimas que lhe vieram aos olhos.
- Obrigada por dizer isso. No s porque voc  to bom para mim. -. mas por me assegurar que papai no foi esquecido.
- Claro que ningum o esqueceu. Todos gostavam muito dele e quem conhecia sua me, tambm gostava muito dela.
54
Dizendo isso, ele deu um profundo suspiro. Se ao menos lorde Leo fosse o duque, eu no precisaria fugir com Carolina e armar um escndalo.
- Essa ideia o incomoda? - perguntou Rosana.
No propriamente. O que mais desejo  a felicidade de
Carolina e sei que ela nunca seria feliz com o marqus nem com outro homem daquele tipo.
- Eu disse isso, exatamente, para Carolina. As dificuldades de vocs so obstculos e barreiras que devem ser transpostos, antes de atingirem a linha de chegada.
- Voc tem razo, haja o que houver Carolina ser minha, e eu matarei aquele que procurar me deter!
Ele falava com tanta violncia, que Rosana olhou-o surpresa, pois nunca o vira assim.
Ela observou como o amor o havia transformado num homem de personalidade, decidido a alcanar tudo custasse o que custasse.
- Agora preciso voltar, seria um erro deixar algum perceber que estamos juntos, confabulando. Estarei aqui segundafeira e, se Deus quiser, com boas novas. A eu 
j terei a licena especial e talvez, tambm, uma boa fortuna com a qual poderei satisfazer todos os desejos de Carolina.
- Tudo o que ela realmente quer  voc - replicou Rosana, percebendo como os olhos dele brilharam com essa resposta.
Ele ajudou-a a montar e esperou que se afastasse em direo ao castelo. Tomou, ento, o caminho de sua casa.
Somente ao avistar o castelo, Rosana tornou a lembrar-se do monte de roupas que a duquesa lhe deixara para cerzir. A fim de recuperar o tempo gasto naquele dia, 
teria de trabalhar at altas horas, para conseguir terminar o servio. Consolando-se, pensou: "Duvido que elas voltem antes do fim de semana! "
Os dez dias que o marqus estipulara para o casamento terminariam no domingo. Um dia estranho para um casamento na alta-sociedade, entretanto, a palavra daquele 
senhor era uma ordem e se inventasse casar num domingo, assim seria.
55
"Por isso  certo que Carolina chegar, o mais tardar, na quinta-feira", pensou Rosana.
Naturalmente no teriam muito tempo, mas a duquesa no iria perder a ocasio de fazer da futura marquesa de Quorn um "modelo" para outras noivas ambiciosas admirarem 
e invejarem.
56
CAPTULO IV
Cavalgando em direo ao bosque, Rosana cogitava sobre a forma como diria a Patrick, que todos os planos tinham desmoronado ao seu redor.
Ficara assombrada quando, tarde da noite, uma carruagem postal chegara de Londres, trazendo-lhe uma carta de Carolina. Quando conseguiu ler a mensagem, viu que no 
era s urgente, como to secreta que Carolina encarregara Emile de envi-la por carruagem-postal, em vez de confi-la ao correio.
A carta fora, certamente, escrita s pressas e ansiosamente, pois a bela caligrafia de Carolina no passava de rabiscos.
com certo esforo, a moa leu:
"Querida Rosana.
Estou lhe mandando esta por carruagem-postal porque Patrick precisa saber, imediatamente, das novidades. Estou desesperada e nada mais posso fazer alm de rezar 
para que, de alguma maneira, apesar de tudo estar contra ns, ele me salve.
Mame e o marqus tiveram uma discusso muito desagradvel hoje de manh, quando saamos para as compras. Ele precisa estar tera-feira em Paris e sugeriu que o 
casamento se realize no sbado.
Tolamente, pensei que partiramos daqui na quinta-feira, mas mame
 disse-lhe que ns s chegaramos ao castelo no sbado, por volta das cinco horas da tarde.
Ele contestou, dizendo que seria ridculo deixar tudo depender da entrega do vestido da noiva. Voc sabe, porm, como mame  teimosa, quando toma uma deciso. Finalmente, 
o marqus concordou, mas ficou aborrecido.
Insistiu ainda na necessidade de estarmos casados no domingo,
 57
s nove e meia da manh, e que no deveria haver recepo alguma, pois partiramos para Dover, logo que eu trocasse de roupa.
Receando que ele desfizesse o casamento, mame aceitou essas condies, embora de muito m-vontade. Depois, ela foi to rude comigo, que tive um chilique.
Na realidade, eu temo que, chegando to tarde ao castelo, Patrick e eu no possamos fugir na mesma noite.
Rosana, v procur-lo imediatamente e pea-lhe para no desistir de salvar-me dessa situao. Quanto mais vejo o marqus, mais ele me causa temor e eu sei que no 
posso viver sem Patrick e no seria feliz com nenhuma outra pessoa.
Emile vai enviar esta carta em seguida. Estou enjoada de experimentar tantas roupas e, sabendo que no vou us-las, so horas de canseira intil: tenho de ficar 
em p, enquanto as costureiras espetam alfinetes em mim!
Pelo amor de Deus, Rosana, ajude-me! Estou com tanto medo e to infeliz!
com todo carinho, sua
Carolina.
P. S. - Por favor, entregue algumas das minhas roupas a Patrick para que eu tenha, ao menos, o que trocar. P. P. S. - Coloquei um bilhete para ele, dentro desta 
carta."
Realmente, havia um pedao de papel dobrado, escrito Patrick e Rosana s desejava que aquelas linhas o animassem, depois de ele ter lido a carta desesperada de Carolina.
Quando avistou o bosque, foi invadida por um sentimento de culpa, achando que desde o comeo deveria ter convencido Carolina a se casar com o marqus e desistir 
de Patrick.
Mas alguma coisa l no fundo a desafiava, fazendo-a indagar por que a mulher tinha de ser sempre empurrada de l para c, como se fosse um objeto inanimado, sem 
sentimentos prprios.
Isso lhe causava alguma tristeza. Ela faria tudo que estivesse ao seu alcance para ajudar Carolina a se casar com o homem que amava.
58
Patrick estava na clareira, como fizera todos os dias, esperando que surgisse alguma novidade.
Pela expresso no rosto de Rosana, viu que algo de grave acontecera e perguntou, ansiosamente:
- O que ela disse?
- Lamento muito - disse Rosana, estendendo-lhe a missiva mas as notcias so ms.
O moo sentou-se num pedao de tronco e leu avidamente a carta.
Rosana sentou-se ao lado dele, tentando pensar em algum plano, mas em vo. A situao era muito difcil. Mesmo se ele e Carolina fugissem logo que ela chegasse, 
eles no estariam muito longe, quando dessem pela ausncia da jovem. Assim, o duque poderia alcan-los, antes de terem se casado.
Ele possua muitos criados, pajens e cavalos de raa. Rosana tambm sabia que s existiam poucas estradas no Condado, por onde Patrick e Carolina pudessem escapar.
Confusa, a jovem calculava quantas horas eles teriam, antes que o duque e a duquesa descobrissem que Carolina no estava no castelo, quando Patrick levantou o rosto, 
e falou:
- Eu j sabia que isso iria acontecer.
- Voc sabia? Como?
- Sem dvida. Sabia que a duquesa, com sua mania de grandeza e desejando que a filha, vestida de noiva, parecesse uma rainha, no conseguiria to rapidamente mandar 
aprontar tudo.
- E o que poderemos fazer? - perguntou Rosana nervosa.
- Primeiramente, tirarei Carolina do castelo, quando seus pais julgarem que ela tenha ido dormir.
- Seria por volta das dez horas. Isso daria a vocs nove horas de tempo, antes que eles percebam sua ausncia. Deve ser bem cedo, pois o casamento ser realizado 
s nove e meia.
- Eu preciso de mais tempo.
No sei como - replicou Rosana -, porque no momento em que derem pela falta de Carolina e compreenderem a razo,
O duque mandar empregados e pajens, em todas as direes
59
possveis, para alcanar vocs. Seria necessrio casar o quanto antes e fora do Condado, onde o nome Brunt no seja to conhecido.
- Eu j pensei em tudo e a nica chance que temos depende de voc querer nos ajudar.
- Eu? Naturalmente! Farei o que vocs quiserem.
- Realmente? - perguntou Patrick de forma estranha.
- Claro. Eu amo Carolina como se fosse minha irm, tenho certeza de que ela s ser feliz a seu lado.
- Muito bem - disse Patrick. - O que voc tem a fazer, Rosana,  tomar o lugar de Carolina e se casar com o marqus!
- O que... voc est dizendo? Como eu poderia fazer isso? - exclamou Rosana, surpresa e assustada.
- No ser fcil, mas  possvel - disse Patrick, fazendo uma pausa, como se estivesse pensando em algo.
Depois, ele prosseguiu:
- Vocs duas tm a mesma estatura e cabelos claros. A grande diferena so os olhos, mas toda noiva os conserva baixos. Alm do mais, voc usaria um vu sobre o 
rosto.
- Eu... eu no compreendo. Como voc pode me pedir uma coisa to maluca?
- No  maluca, se voc pensar um pouco - disse Patrick, calmamente. - A duquesa, que  mais conservadora que o duque, ir na frente para a igreja, enquanto Carolina 
vir depois com o pai.
- Sim... mas. - comeou Rosana.
- Se voc planejar tudo direitinho - continuou Patrick e no deixar que a duquesa veja Carolina, antes de ela estar vestida de noiva, no acredito que o duque e 
o marqus percebam a troca.
Rosana arregalara os olhos e mantinha as mos fortemente entrelaadas, mas nada falou, deixando Patrick continuar.
- Uma vez que voc esteja casada e seja legalmente a mulher de Quorn , todos podero gritar e espernear de raiva, mas nada podero fazer. Quando enviarem os empregados 
atrs de Carolina, ns j estaremos longe e casados.
60
Incrdula, a moa passou a mo pela testa, empurrando o chapeuzinho como se este lhe apertasse a cabea.
- Eu no posso acreditar. no que voc est propondo! Sorrindo pela primeira vez, desde que comeara a falar,
patrick disse:
- Se voc reconsiderar o meu plano, vai reconhecer que no s estar ajudando sua prima, de quem tanto gosta, como a si mesma.
E vendo sua surpresa, ele prosseguiu:
- Voc pode at no querer se casar com o marqus, mas a vida com ele ser prefervel  que est levando agora. Carolina j me contou como esto cobrando continuamente 
voc das dvidas que seu pai deixou, e o fato de sua me ter sido francesa.
Isso era indiscutvel e Rosana apenas confirmou com a cabea.
- O que quer que acontea no futuro, o marqus ter de cuidar de voc. Talvez o seu "olho mgico", sobre o qual Carolina tambm me contou e que voc usa para ver 
o futuro, lhe diga que este  o caminho certo. para voc e para ns.
Pensativa, a moa respondeu:
- Compreendo o que voc quer dizer. mas como vou conseguir isso? E se eles. me descobrirem antes de eu estar na igreja? A duquesa vai ficar furiosa e  capaz at 
de me matar!
- Ter, apenas, de tomar cuidado para ela no descobrir a troca, antes de voc se tornar marquesa de Quorn !
Ento, um pouco apreensivo por estar forando a situao e temendo parecer desonesto, ele segurou a mo da jovem com muito carinho.
- Essa  a nica forma de voc nos ajudar, Rosana. Seria uma espcie de justia potica em troca da maneira como sua tia a tem tratado! Garanto que seu pai aprovaria 
pregarmos esta pea  duquesa.
Enquanto Patrick fazia renascer aquela lembrana to querida, Rosana teve a impresso de ver seu pai rindo e dizendo:
"Bem-feito, para eles! Bem merecem o que est para acontecer! "
61
Esta expresso que ouvira vrias vezes de seus lbios, ele certamente a usaria, sabendo o quanto ela fora infeliz, desde que viera para o castelo. Estivera pensando 
nisso tudo, na vspera, enquanto cerzia as roupas para a duquesa, at tarde da noite.
Nem conseguia imaginar qual seria seu futuro, depois do casamento de Carolina, com a tia odiando-a daquela maneira.
At aquele dia, a castel nunca ousara lhe bater, apesar de vrias vezes quase o ter feito. Havia se controlado devido  presena de Carolina, mas... e quando esta 
j no estivesse ali?
Refletindo assim, concluiu que tanto ela seria infeliz no castelo, quanto Carolina, como marquesa de Quorn .
Rosana sentia-se num dilema tremendo e, pelo modo como Patrick lhe apertava os dedos e a olhava, percebia toda sua ansiedade,  espera de uma resposta.
Chegando a uma concluso, ela levantou, decididamente, o rosto e, lembrando-se do pai, quando tomava uma deciso difcil, replicou:
- vou fazer o que me pede, mas olhe Patrick... voc ter de me ajudar muito!
Abraando a moa, no auge da alegria, ele disse triunfante:
- Eu sabia que voc  muito corajosa e faria isso. Obrigado, Rosana, muito obrigado mesmo! Carolina e eu jamais nos esqueceremos desse favor e se voc precisar de 
ns pode contar conosco e vir para nossa casa quando quiser!
- Eu estou com medo... muito medo! No s de prejudicar vocs, mas. de me casar com o marqus!
- Concordo que ele seja meio assustador. Porm, por outro lado, tambm  cavalheiro e um homem do esporte. Quando voc o conhecer melhor, acredito que no o achar 
to ruin assim.
Recobrando-se da grande alegria que o dominava, Patric voltou-se para o lado prtico da questo e props:
- O que temos de fazer, em primeiro lugar,  arranjar algu mas roupas de Carolina para ela ter o que usar enquanto eu no lhe puder comprar outras. - Pensando que 
Rosana no
62
Atendera, ele acrescentou: - Sim, porque voc vai ficar com
O seu enxoval novo!
Se eu conseguir superar esse sentimento de culpa... e partir com o marqus!
- Mas voc ser esposa dele e ter de insistir para que a leve junto para Paris.
Rosana deu um profundo suspiro como se as coisas, agora, lhe parecessem cada vez mais difceis.
- Por favor, embrulhe algumas roupas de Carolina e diga aos criados que algum ir apanh-las para um orfanato, uma vez que ela vai ter um enxoval novo. Deixe o 
pacote junto  porta dos fundos da cavalaria.
- Mas e se algum o vir? - perguntou Rosana.
- No se preocupe, eu cuidarei para que ningum me veja. Junte as coisas que Carolina gostaria de ter e eu cuidarei de todos os outros pormenores. V planejando 
como vai ocultar seus olhos, que so o ponto crucial, e prepare uma desculpa para o caso de a duquesa estranhar sua ausncia.
- Ah, eu nem tinha pensado nisso, mas no tem problema. Emile me ajudar, com certeza. Ela poder dizer que estou adoentada. E como j avisaram que no  para eu 
ir ao casamento, no vai ser difcil.
- Nem na recepo? - perguntou Patrick, incrdulo.
-  claro que no. Voc sabe como eles querem que eu seja invisvel.
- No posso acreditar que eles tenham coragem de trat-la dessa maneira. Alm de deix-los furiosos por sequestrar Carolina, eu gostaria de ver a cara da duquesa, 
quando souber que voc  a marquesa de Quorn !
- Bem, eu no poderei ser mais infeliz do que o seria sem Carolina no castelo - disse Rosana, pensativa.
Mais uma vez, Patrick tomou-lhe as mos e apertando-as carinhosamente, acrescentou:
- Eu no vou lhe agradecer, Rosana. A nica coisa que Posso dizer  que voc  muito corajosa e seu pai se orgulharia de voc.
63
Percebendo o tom sincero dessas palavras, Rosana no pde conter as lgrimas e disse:
- No ser mais difcil do que foi para voc competir com o marqus na corrida de obstculos e... desta vez ns venceremos!
- Venceremos, sim - repetiu Patrick.
Rosana no conseguia adormecer, pensando em tudo que ela e Patrick tinham combinado naquela manh. Ele a encorajara muito e acabara por lhe dar um papel, onde escrevera 
tudo sobre o plano, passo a passo.
Mas morria de medo, s de pensar que poderia falhar em alguma coisa.
Carolina chegara s cinco horas, com a duquesa e Emile e ]vendo a fisionomia da prima, logo percebera que as coisas no iam bem.
A duquesa entrara feito um furaco, pelo castelo adentro reclamando dos arranjos de flores para o casamento, que no estavam do seu agrado.
Enquanto isso, as duas moas subiram correndo para o quarto de estudos, onde poderiam conversar sossegadas. L chegando sem flego, Carolina foi logo perguntando, 
desesperada:
- E Patrick? O que ele disse de tudo isso?
- Est tudo bem. Ele a espera, hoje  noite, s nove meia, junto aos arbustos da porta dos fundos.
- Ele vai mesmo estar l? Voc tem certeza?
- Claro que sim - disse Rosana, encorajadoramente. vou lhe contar, depressa, o que ele planejou.
As duas sentaram-se no banco da janela, porque era mais distante da porta e l, ningum as ouviria. Ajudando Carolina a desamarrar as fitas do chapu e do casaco, 
Rosana contou-lhe num murmrio, como o jovem conseguira convenc-la a participar de todo aquele plano.
com um gritinho de alegria, Carolina exclamou:
- Voc vai tomar o meu lugar na igreja? No posso acreditar!
- Patrick diz que precisa desse tempo, para vocs poderem se casar e atingirem a costa.
64
Mas ento voc vai se casar com o marqus por minha causa?
- Patrick convenceu-me de que seria o nico meio possvel de vocs fugirem.
- Oh, Rosana, eu sinto muito! Ele  horrvel e eu o odeio! Cada vez que o vejo, fico com mais medo dele!
- Patrick insiste que ele no pode ser pior do que tia Sofia.
- Patrick tem sempre razo - disse Carolina. - Se voc realmente fizer isso, por mim, eu lhe serei grata pelo resto de minha vida!
-  o que prometi fazer e, agora, vamos ver se o seu vestido de casamento no fica muito apertado para mim - disse Rosana, sorrindo. - Voc vai usar o vu da famlia, 
no vai?
- Mame falou nisso o caminho inteiro, desejando que voc o tivesse consertado e pendurado para desamassar.
- Foi o que fiz. A renda  muito bem-feita, e nem se percebe os pontinhos dados para fechar alguns buraquinhos.
- E quando mame vir voc, na manh, aps a nossa partida?
-  justamente a, que Emile vai ter de nos ajudar. Rosana exps a Emile todo o plano feito.
- Terei um bocado de complicaes, quando tudo vier  tona
- disse Emile desanimada.
- Voc sabe que Carolina vai querer voc ao lado dela, quando voltar para a Inglaterra. O melhor que tem a fazer  ir para a nova casa do sr. Fairley e esperar a 
chegada do casal l.
Contou para Emile o que j contara a Carolina: Patrick, agora, possua uma enorme propriedade, com uma linda moradia, em Oxfordshire, que ele herdara junto com a 
avantajada fortuna de seu tio.
Emile ficou contentssima com estas novidades, enquanto Carolina considerava tudo isso sem importncia, comparado ao fato de que ela se casaria com Patrick.
- Talvez tenhamos de ficar um bom tempo fora da Inglaterra, ao menos at nos certificarmos de que papai no poder anular nosso casamento - disse ela, pensativamente.
65
- No creio que tente isso. Ele e tia Sofia pareceriam doidos, tolos se assim o fizessem.
- Mame vai querer me castigar por eu fugir e, se quiser poder ferir Patrick, com seu dio.
Refletindo, Rosana achou que a prima tinha razo e que dependeria do seu bom desempenho, dar tempo suficiente aos dois para que pudessem ficar fora do alcance de 
seus pais.
Assim que amanheceu, Rosana levantou-se, tomou banho e comeou a arrumar o cabelo da maneira como estava o de Carolina quando voltou de Londres.
Levou bastante tempo para conseguir arrum-lo e estava ainda diante do espelho, quando Emile entrou no quarto.
- Imaginei que voc j estivesse de p. Correu tudo bem ontem  noite?
- Perfeitamente! - replicou Rosana. Contou a Emile como levara Carolina pela escada dos fundos, enquanto os criados jantavam, e como tinham corrido at os arbustos, 
onde Patrick a esperava.
Ele chegara em uma nova carruagem que comprara, mais segura e cmoda, puxada por quatro lindos cavalos que tinham pertencido a seu tio.
Havia um pajem com ele, que ajudou a carregar a mala e caixa de jias de Carolina, cheia de coisas que ela comprara em Londres.
Uma delas, Rosana percebeu, sorrindo, era uma lindssima camisola e um neglig de renda finssima.
- Patrick vai lhe comprar um enxoval novo - disse Rosana a Carolina. - Alm do mais, suas melhores roupas ele as apa nhou aqui, como se fossem para Um orfanato.
Carolina riu e exclamou:
- Vocs dois so muito espertos! E eu estou feliz de saber querida Rosana, que voc vai ficar com o meu enxoval, cujo preo foi muito alm do que minha me pretendia 
gastar!
Havia, ainda, um pouco de luz e Rosana pde ver como a fisionomia dos dois namorados irradiava total felicidade.
66
Carolina atirou os braos ao redor do pescoo de Rosana, dizendo:
- Minha querida, muitssimo obrigada! Isso jamais aconteceria sem a sua ajuda e eu rezarei a noite inteira para que, amanh, d tudo certo.
Eles partiram, e Rosana acompanhou a carruagem com um olhar alegre, mas ao mesmo tempo apreensivo. Ao voltar para o castelo pensou que, acontecesse o que acontecesse, 
aquelas duas pessoas tinham encontrado o caminho certo para a felicidade. Foi o que disse para a ama.
Ela se deitara, tentando conciliar um sono que custou a vir. Mesmo assim, acordara bem cedo para arrumar o cabelo.
Chegara o momento do teste real!
Emile foi na frente para ver se no havia ningum no corredor, trancou logo a porta do quarto de Rosana e guardou a chave. Enquanto as duas iam para o quarto de 
Carolina, ela disse:
- vou dizer  duquesa que voc est com um terrvel resfriado e, por isso, ser melhor no aparecer para Carolina no o pegar.
- Est timo! - concordou Rosana, enquanto entrava em baixo dos cobertores da cama de Carolina.
- Voltarei em meia hora para lhe trazer uma xcara de ch. A duquesa s levantar daqui a uma hora ou mais, portanto, procure descansar um pouco.
Era fcil falar. Rosana ficou acordada, tremendo de medo. S conseguiu rezar e pedir a Deus e a seus pais que a protegessem em toda aquela situao. "Vocs foram 
felizes e eu tambm quero ser feliz, mas aqui no castelo, como cerzideira e maltratada por tia Sofia, jamais poderei
 s-lo. Se no posso me casar por amor, talvez ao menos consiga ser amiga do marqus. Em comum, ns s temos os cavalos!
Era um consolo precrio e ela estava muito apreensiva com o que o nobre senhor diria, quando descobrisse que fora ludibriado. Isto, se ela realmente conseguisse 
chegar a ter o anel dele no seu dedo.
67
Estava ainda rezando e meditando sobre toda aquela situao, quando a ama entrou com a xcara de ch.
Emile abriu as cortinas, mas deixou as persianas meio abaixadas. Comeou a arrumar as roupas de casamento.
J havia preparado tudo quando, uma hora depois, a duquesa entrou no quarto.
- Voc ainda no se levantou? - falou ela asperamente, dirigindo-se ao vulto deitado. - J era tempo de estar se aprontando. Seu futuro marido insistiu para que 
no se atrasasse e no convm deix-lo esperar.
Rosana no respondeu, e levantou o leno, que lhe cobriu quase todo o rosto, fingindo que chorava.
- E essa, agora? Por que est chorando? Voc vai ficar com os olhos inchados - disse a me, aborrecida.
Emile foi para junto da duquesa e disse:
- Eu gostaria de falar particularmente com a senhora.
No primeiro instante a duquesa pareceu no querer atender a esse apelo mas, lanando um olhar apreensivo para a filha, saiu relutante, acompanhada de Emile.
- No a deixe mais nervosa, senhora.  muito natural que uma moa sempre acostumada aqui com os pais, fique triste quando tem de deixar seu lar. No se preocupe, 
ela estar l embaixo na hora certa.
- Mas por que isso, agora?
- O casamento  um passo no escuro, senhora. E a nossa jovem  muito sensvel.
A duquesa abanou a cabea, mas achando que Emile tinha certa razo, foi andando e recomendou:
- Muito bem, mas veja que ela esteja pronta em meia hora! Traga-a ao meu quarto para que eu lhe ponha a tiara sobre o vu.
- Desculpe, senhora, mas acho melhor eu fazer isso. Ela ficaria mais emocionada e recomearia a chorar, estragando tudo.
- Nunca imaginei que ela fosse se comportar de maneira to ridcula! - exclamou a duquesa, aborrecida.
68
- Deixar o lar em companhia de um homem estranho, senhora,  assustador para qualquer mulher e Carolina  ainda quase uma criana.
- Muito bem. Venha pegar a tiara no meu quarto e, quando eu for para a igreja, mandarei avis-la;
Ela desceu as escadas feito um furaco e Emile a seguiu.
Rosana ainda no tinha se recobrado totalmente do susto, quando um pajem bateu  porta, para dizer que a duquesa estava indo para a igreja e que ela deveria estar 
em cinco minutos no hall de entrada.
Quando Rosana ficou pronta, no belo vestido de noiva da prima, e Emile acabou de lhe arrumar os cabelos, seria mesmo difcil dizer que no era Carolina.
Sob a forte tenso, seus olhos estavam avermelhados e tinham um brilho estranho que nada tinha de ingls.
Como Carolina, ela tambm se parecia com a formosa ancestral Mary Brunt, com cujo nome as duas tinham sido batizadas.
Mary Brunt casara-se com um primo, que mais tarde tornou-se o oitavo conde Brunt. Ele lutara nas guerras, por Marlborough, com muita galhardia e fora agraciado com 
o ttulo de Duque de Bruntwick. Lady Mary foi para a Frana com o marido e lutou nos campos de batalha, a seu lado. Diziam que, com sua inteligncia e rapidez de 
raciocnio ajudou-o a vencer uma batalha, mesmo antes de chegarem os reforos enviados por Marlborough, tornando-se uma herona.
Atravs dos tempos criou-se o costume de balizar todas as filhas dos descendentes do primeiro duque com o prenome de Mary. Assim, agora, as duas primas chamavam-se 
Mary Carolina e Mary Rosana o que, segundo Patrick, iria facilitar na igreja, na hora do casamento.
Os olhos de Rosana, entretanto, denunciariam-na a qualquer pessoa que se aproximasse e ela tambm possua uma aura muito diferente da de Carolina. Caractersticas 
percebidas apenas por seus pais.
"Isso ela herdou de voc, minha querida", dizia lorde Leo, "e  difcil de explicar essa magia, que eu sempre associei a voc, como algo espiritual que nunca vi 
em outras mulheres."
69
"Uma filha sua tinha de ser uma pessoa diferente", replcava carinhosamente a me de Rosana.
Mas, naquele instante, olhando-se no espelho, Rosana s desejava que com o vu sobre o rosto e, mantendo os olhos baixos, seu tio, sua tia e o marqus no percebessem 
que ela no era Carolina.
- Agora, no se preocupe com coisa alguma. As pessoas vem aquilo que esperam ver e todos s esperam ver Carolina sob esse vu - disse Emile.
- Eu... espero que voc tenha razo... - replicou Rosana baixinho.
Como o casamento no iria ser um evento social com damas de honra, conforme a duquesa desejara, o vestido e o vu quase no tinham cauda e, assim, Rosana ia poder 
se movimentar mais livremente.
Quando ela chegou ao hall, o tio a esperava, resplandescente com uma poro de medalhas sobre o peito, e foi dizendo:
- Vamos logo, o casamento est marcado para as nove e meia e temos apenas cinco minutos para chegarmos l.
Rosana teve vontade de dizer que faria bem ao marqus esperar um pouco, mas achou melhor no se arriscar.
A carruagem e os cavalos estavam enfeitados com flores brancas e fitas de cetim.
O duque subiu na frente, enquanto Emile se esforava para arrumar o vestido e o vu para que no amassassem. No banco, em frente, colocaram o buque da noiva.
A carruagem partiu, e Rosana permaneceu com a cabea baixa, procurando esconder seu rosto o mais possvel.
-  sempre uma correria com vocs jovens de agora. Eu preferia, querida filha, que voc se casasse  moda antiga, com um belo almoo depois da cerimnia. Mas no 
fui consultado. Sua me combinou tudo com seu futuro marido. E se voc quer saber, acho toda essa pressa desnecessria!
Aproveitando os ltimos momentos, ainda acrescentou:
- vou sentir muito sua falta, Carolina. Voc sempre foi uma boa menina. No que eu esteja descontente com o seu
70
casamento com um cavalheiro que ocupa posio de destaque na corte e, alm disso, possui tantos bens. Mas, por outro lado, Quorn   um homem complicado e, provavelmente, 
ser um marido difcil. Mas  um cavalheiro e certamente agir bem com voc. Se quer um conselho, no se meta em seus assuntos particulares. Todo homem jovem "pratica 
uns tantos desvarios" e, pelo que sei, Quorn  tem uma quantidade deles!
Dando uma risadinha e julgando no ser muito apropriado falar daquilo com sua jovem filha, acrescentou:
- Bem, aqui estamos, procure obedec-lo e nada de lgrimas. Homem algum gosta de mulher que chora.
Rosana no se apressou. Desceu com cuidado, pegou o ramo que o pajem lhe apresentava e apoiou a mo enluvada no brao do tio.
Ao passar pelas pessoas enfileiradas, ela no ergueu os olhos, mas ouviu algumas dizerem:
- Felicidades, senhorita. Que Deus a abenoe! Seja muito feliz!
No olhou para eles, mas balanou a cabea, para demonstrar que ouvira seus votos. Naquele momento chegaram ao portal da igreja e ela ouviu o rgo que tocava suavemente.
O duque parou um instante e, logo, guiou-a atravs da nave, onde apenas parentes e pessoas mais ntimas trocavam exclamaes de admirao.
Mesmo sem olhar, Rosana sabia que o marqus a esperava nos degraus do altar. Repentinamente, passou-lhe pela ideia estar ligando-se indissoluvelmente a um homem 
que lhe era desconhecido e, alm disso, temido por todos.
"Eu devo estar louca!", e, por um instante, pensou em fugir dali, correndo. Pde se ver descendo as escadas atropeladamente, jogando o buqu no cho. Mas a surgiu-lhe 
diante dos olhos o castelo, como enorme priso. Uma vez que as portas se fechassem sobre ela, a luz de fora desapareceria e ela seria encarcerada feito uma freira 
enclausurada.
"At o marqus  melhor do que isso", pensou ela, e percebeu que j estava a seu lado.
71
Percebeu quando algum retirou o buqu da sua mo direita enquanto o marqus lhe tomava a esquerda. A fora e a vibrao daqueles dedos transmitiam-lhe vigor e possessividade. 
Pensando nisso, no percebeu que a cerimnia continuava e agora j ouvia o noivo repetir as palavras do pastor:
- Eu, Titus Alexandre Mark, tomo voc, Mary Carolina, por minha esposa, para conservar e proteger, a partir desse dia...
Rosana ouviu sua voz firme e autoritria, ecoando pela igreja, em completo silncio.
O pastor virou-se para ela e comeou:
- Eu, Mary Carolina, tomo voc.
Depois de pequena hesitao, ouviu-se a voz baixa, quase inaudvel de Rosana, repetindo:
- Eu. Mary Carolina, tomo voc.
E a, o anel de casamento estava j no seu dedo e ela sabia que tudo terminara. Estava casada e, como o reverendo dissera, nenhum homem tinha o direito de separ-los.
O livro de registros, certamente por ordem do marqus, estava na sacristia. Ele assinou-o e Carolina, levantando o vu com muito cuidado, abaixou bem o rosto, para 
que ningum o visse, enquanto assinava seu nome de forma ininteligvel.
Depois disso, apoiada no brao de seu marido ela saiu da igreja ao som da marcha nupcial, com o rosto e os olhos novamente cobertos pelo tule. No portal da igreja 
houve uma chuva de ptalas de rosas e de arroz. Isso significava que no haveria cumprimentos e o marqus apressou o passo. Ela voltou-se um pouco e acenou, levemente, 
para todas aquelas pessoas. Quando chegaram  carruagem nupcial ela percebeu que, durante a cerimnia, tinham abaixado a capota. Ao partirem, Rosana compreendeu 
que, de fato, tudo aquilo tinha sido um milagre.
Quando a carruagem parou diante do castelo, Emile j esperava a noiva para ajud-la com o buqu e o amplo vestido. Ao chegar ao quarto, Rosana se deu conta de que 
ela e o marqus no haviam trocado uma palavra sequer, desde que se tinham tornado marido e mulher.
72
- Correu tudo bem? - perguntou Emile -, fiquei rezando para que ningum percebesse a troca.
Rosana mostrou-lhe o dedo, onde brilhava uma linda aliana de ouro.
- Agora quero ver como vou fazer para tia Sofia no perceber nada.
- Voc vai ver, ela no vir at aqui. Apresse-se e ponha logo o chapu.
Na noite anterior, quando Emile e Rosana tinham desembrulhado a toilette que Carolina usaria para a viagem, viram que o chapu, na ltima moda, tinha uma aba presa 
por uma larga faixa de tule que cobriria bem seu rosto. O traje era muito charmoso e Rosana ficou linda com ele.
Era uma sorte nem ela nem Carolina serem altas e ela j percebera que, com salto baixo, batia apenas no ombro do marido.
- Eu preciso dar um jeito de s sair no ltimo instante disse ela.
- No haver mais problema, agora, uma vez que o marqus est com tanta pressa de partir - replicou Emile.
Rosana s rezava para que ela tivesse razo. Trocou rapidamente o vestido de casamento pelo elegante conjunto azul-claro, acompanhado por uma capinha da mesma cor. 
Suas preces foram ouvidas: a duquesa no apareceu. Em seu lugar veio um pajem dizer:
- Milorde manda cumpriment-la e diz que gostaria de partir dentro de alguns instantes.
- Diga-lhe que tudo est pronto. Traga para a senhora um pedao de bolo da noiva e uma taa de champanhe, pois ela no ter tempo para se juntar aos outros na sala 
de recepo.
Rosana apenas tomou um gole de champanhe, mas no conseguiu comer nada, pois sentia-se extremamente cansada e nervosa.
Ela estava pronta para a viagem e muito bonita. Emile ainda lhe estendeu um lencinho, dizendo:
- Para o caso de a duquesa chegar muito perto e voc ter um acesso de choro.
73
-  o que eu gostaria de ter agora.
- No ouse fazer isso! Agora, justamente, voc vai ter de lanar mo de toda sua inteligncia e astcia, para adiar ao mximo o momento da revelao, pois s assim 
ajudar Carolina,
Sorrindo, Rosana replicou:
- Fique sossegada, eu no me esqueci disso. Mas estou pensando no que acontecer no momento em que ele descobrir tudo e me acusar de mentirosa e at de impostora!
Mas a ela percebeu que Eniile nem ouvira suas palavras. S estava interessada em ajudar Carolina, que preenchia todo o seu mundo. Rosana teve pena daquela pobre 
mulher, que iria enfrentar o dio inevitvel da duquesa, quando tudo viesse  tona. Lembrou-se, ento, que Emile poderia ir para a nova casa de Carolina, em vez 
de ficar ouvindo as recriminaes e acusaes da castel.
Algum bateu  porta, avisando:
- Milorde est no hall e diz que os cavalos esto impacientes!
Rosana deu um risinho e falou:
- E isso  mais importante do que qualquer outra coisa. Novamente Emile deu a resposta ao pajem.
- Diga ao senhor marqus que milady est pronta e vai descer. Sugira-lhe, tambm, que j suba na carruagem, pois a senhora est emocionada e no deseja despedidas 
prolongadas.
Surpreso com a mensagem, o criado desceu rpido as escadas.
Rosana esperou mais alguns instantes, para certificar-se de que a impacincia e a inevitvel irritao levariam o nobre a ter dificuldades para controlar os cavalos.
Ao chegar ao topo da escadaria ela percebeu que justamente isso estava acontecendo: o tio e a tia estavam junto  porta, enquanto os convidados agrupavam-se do lado 
de fora, nos degraus de entrada. Certamente o marqus j teria subido  carruagem, enquanto os pajens estariam procurando segurar os impacientes cavalos.
Chegando embaixo, ela dirigiu-se para o lado do tio que tentou beij-la por baixo do chapu. Virando-se para a tia, segurou o leno sobre os olhos.
74
- Adeus, querida, adeus - disse a duquesa. - E pare de chorar! No h necessidade disso.
Sem dizer nada, Rosana apressou-se, sob uma chuva de ptalas de rosas e arroz.
Algum ajudou-a a subir na carruagem e, com a algazarra que os convidados faziam nos degraus da porta, os pajens logo largaram os cavalos e eles partiram.
O marqus cruzou a ponte sobre o lago e atravessou a alameda de entrada em grande velocidade, deixando uma nuvem de p atrs deles.
A jovem procurou acomodar-se confortavelmente, pensando que a sorte a ajudava, pois o bom tempo evitava que eles tivessem de ficar dentro de uma carruagem fechada. 
Isso, naturalmente, teria levado a que o marqus descobrisse logo que se casara com uma estranha.
Ao atravessarem os altos portes de entrada, todo ornamentado com flores, sentiu repentinamente um alvio por ter conseguido representar bem toda aquela farsa. Ningum 
suspeitara, por um segundo sequer, que ela no era Carolina!
A moa sentia tal sensao de triunfo que, repentinamente, tudo lhe parecia lindo, verde e florido. O sol brilhante era um bom sinal para o dia do casamento de Carolina 
e, no fundo, ela desejava que um pouco daquela felicidade a atingisse tambm.
Estava ciente de que o ltimo obstculo ainda estava para vir e que poderia no s ser difcil como at desastroso.
No momento, no havia risco de o marqus, ocupado em dirigir os cavalos, olh-la muito de perto, e passou-se um longo tempo, antes que ele se manifestasse:
- Devo me desculpar, por insistir em que tudo fosse feito dessa maneira to apressada. Na realidade, teria sido bem mais fcil se sua me tivesse concordado em fazer 
o casamento no sbado.
Falando baixo e suavemente, para que ele no percebesse taua voz diferente da de Carolina, ela disse: - No. est tudo. V bem.
- No consigo acreditar que isso seja verdade - disse o
75
nobre. - Sempre imaginei que as mulheres gostassem de se casar com um cortejo de damas de honra e uma fabulosa recepo depois da cerimnia.
Rosana no conseguiu deixar de rir.
- Se voc no estivesse com tanta pressa minha me teria feito um casamento assim.
Depois de falar, ela achou que fora um pouco irnica e percebeu que o marqus tinha se voltado para olh-la. Felizmente o chapu cobria bem seu rosto, mas deveria 
ser mais cuidadosa.
Um diabinho sentado no seu ombro, parecia, porm, cochichar-lhe que a roda de fogo chegaria, mais cedo ou mais tarde e que, portanto, ela no teria nada a perder.
Desde sua chegada ao castelo, nunca mais tivera com quem conversar seriamente, como o fazia com sua me. Muitas vezes, sentira falta das gostosas risadas com seu 
pai e os duelos de palavras que os dois costumavam travar. Ele detestava mulheres estpidas, dizia que elas o aborreciam, justamente por isso, ela sempre procurara 
manter dilogos interessantes. Provocava longas conversas porque sabia que tinham tanta coisa para se dizer.
com o marqus, sentiu que poderia, ao menos, ser provocante:
- Como parece que nenhum de ns dois gostaria de se casar novamente, poderamos nos esforar ao mximo ou ser... que usei a expresso errada. no que lhe diz respeito?
Novamente percebeu que o marqus ficara surpreso.
- Mas por que voc pensaria isso? - perguntou ele.
- Porque, quando estive em Londres, ouvi dizer que o senhor no desejava casar, tanto que o chamavam de marqus "solteiro".
Houve um momento de silncio e ento ele deu uma boa risada:
- Ora, eu no, nunca ouvi falar isso.
No era de surpreender, pois Rosana inventara aquilo naquele momento.
76
Acha que  uma avaliao verdadeira entre o que o senhor foi e o que poderia vir a ser?
Novamente ele a olhou, antes de responder:
- No admito nada disso! Quando a pedi em casamento, naturalmente estava ansioso para que aceitasse!
- Sinto-me lisonjeada, mas no creio que tenha sido o "amor  primeira vista" de que os poetas tanto falam.
Ela fez uma pausa, mas em seguida acrescentou:
-  de Marlowe aquela clebre frase: "Quem jamais teve um amor  primeira vista? "
O marqus parecia concentrado nos seus cavalos, por isso, lembrando-se do que Carolina lhe contara, ela continuou:
- A primeira vez que nos encontramos foi no Almack's e enquanto danvamos tive a impresso de que estava. aborrecido com o tempo que perdia com uma debutante.
Quanto mais pensava no que acontecera, tanto mais julgava que fora um insulto dele quase exigir que o matrimnio se realizasse s carreiras. E se ela fosse mesmo 
Carolina, e tivesse querido cumprimentar os poucos amigos que tinham assistido ao enlace ou desejado se despedir longamente de seus pais? A sua exigncia teria tornado 
aquilo impossvel.
"Ele  amedrontador, mas acima de tudo  egosta e no tem a mnima considerao para com os outros."
Esse pensamento fez com que ela se sentisse melhor e no mais se atemorizasse tanto. Lembrou-se tambm que se naquele momento a prpria Carolina estivesse ali estaria 
tremendo e muito nervosa com o homem com quem se casara.
"Farei o possvel para no sentir medo dele! Se eu o enganei, ele bem o merece! E no creio que, por um instante sequer, ele tenha pensado em sua esposa como uma 
mulher que deseja ser amada e respeitada."
Estavam, agora, atravessando um trecho muito estreito e difcil da estrada, por isso no convinha falar. Rosana ficou contente em ver que seu chapu estava bem amarrado 
e, portanto, no lhe escaparia da cabea. Por outro lado, aquela poeira era muito desagradvel e ela ficou imaginando o que o marqus diria se ela lhe pedisse para 
correr menos.
77
Quando a estrada ficou pior e cheia de curvas, ele foi obrigado a dirigir mais lentamente.
- Voc ainda no me falou por que est com tanta pressa de chegar  Frana. Deve ser algo de mxima... importncia.
-  sim! - disse ele secamente.
Rosana ficou imaginando se a urgncia estaria relacionada a uma mulher de cabelos ruivos e olhos verdes.
78
CAPTULO V
Rosana despertou e ouviu algum afastar as cortinas da janela. Abriu os olhos e, no primeiro instante, no sabia onde estava.
Quando o criado que a acompanhara na noite anterior acabou de abrir as cortinas e se voltou, Rosana exclamou:
- J  dia!
- Sim, milady, e a senhora dormiu a noite inteira.
A jovem olhou  sua volta para se certificar da situao.
A lembrou-se de tudo: estava no iate do marqus.
Parecia incrvel que ela e o marqus tivessem trocado apenas algumas palavras, durante o longo percurso do castelo at Dover.
Tinham viajado numa velocidade fantstica, depois de deixarem o castelo, tendo ento chegado ao ptio de uma grande estalagem.
- Permaneceremos aqui exatamente doze minutos - dissera-lhe o marido que, por mais de uma hora, no pronunciara uma palavra sequer.
Uma criada conduziu-a a um amplo quarto. Rosana lavou o rosto e as mos, enquanto a moa sacudia a poeira de suas roupas e do chapu.
Apressou-se o mais que pde e desceu para uma salinha, onde um empregado a esperava:
- Milorde manda  senhora seus cumprimentos, ele acabou de sair para ver se os cavalos esto prontos.
A seguir, serviu-lhe um delicioso pato assado e uma taa de champanhe. Os doze minutos j tinham se passado h muito tempo, por isso, apressou-se a sair. Encontrou 
o marqus j na carruagem, segurando as rdeas da nova parelha de cavalos.
79
Chegaram tarde da noite aos arredores de Dover e ela espantou-se com o esprito de organizao do marqus.
Desde o almoo, tinham trocado duas vezes os cavalos e, em cada um desses lugares, havia uma taa de champanhe e um leve lanche, a sua espera.
O duque chamaria aquilo de "correrias e correrias o tempo todo", mas satisfazia Rosana. Cada minuto a mais, que o marqus demorasse a descobrir sua identidade, significava 
que Carolina e Patrick estariam mais longe e, portanto, em maior segurana.
Quando entraram em Dover e se dirigiram ao porto, o marqus se aproximou de um lindo iate. Ela ficou impressionada. Era bem maior do que imaginara.
Subiram a bordo. O capito os aguardava no alto da escada, para lhes dar as boas-vindas. O marqus cumprimentou-o e perguntou:
- A bagagem j chegou?
- H meia hora, milorde.
- Muito bem, ento levante ncora, capito Beteson.
- Imediatamente, milorde.
Enquanto os dois homens ainda falavam, um criado aproximou-se respeitosamente e pediu que ela o acompanhasse. L em baixo, conduziu-a para uma grande e confortvel 
cabina, onde uma de suas malas j estava aberta.
Os objetos de toilette tinham sido arrumados sobre uma mesinha e uma camisola estendida na cama.
- Imaginei que depois de toda essa poeira da viagem, a senhora gostaria de tomar um banho.
- Muito obrigado - replicou Rosana, satisfeita. Era realmente o que mais desejava naquele momento. Percebeu, tambm, que estava na cabina principal certamente
a do marqus. Ento, passou-lhe feito um raio o pensamento de que ele poderia pretender compartilh-la com ela.
Como de maneira alguma desejava tal coisa, cogitou apreensivamente de que a "hora da verdade" tinha chegado.
Demorando-se no banho mais do que deveria, julgava estar ganhando tempo, pois em alto-mar ele no poderia mand-la
80
embora. Voltando  cabina, sentiu-se exausta. O cansao da noite anterior, passada em claro, mais a louca viagem em alta velocidade e a tenso nervosa produzida 
por toda a situao fzeram-na sentir que sua mente continuava naquele tropel da carruagem, desligada do balano suave do iate.
- vou descansar apenas alguns minutos - murmurou a jovem.
A cama era confortvel e sua cabea afundou num macio travesseiro. Logo perdeu a noo de tudo... Sentando-se no leito, Rosana perguntou:
- J cruzamos o canal?
- Mais rapidamente do que milorde jamais o fez - disse o pajem com orgulho. - Ele pediu-me para transmitir-lhe seus cumprimentos e dizer que se a senhora estiver 
de acordo, partiremos daqui a uma hora.
Ao sair, ainda acrescentou:
- vou lhe trazer o caf da manh.
Outro empregado, certamente, esperava do lado de fora da porta, pois o pajem voltou imediatamente com a bandeja repleta de coisas gostosas.
S ento, Rosana percebeu que estava com fome. Enquanto comia, ficou imaginando o que o marqus teria pensado por ela no ter aparecido para jantar, na noite anterior. 
Previu, tambm, que certamente continuariam na mesma correria da vspera.
De uma coisa ela tinha certeza: o marqus no gostaria de adiar sua partida para Paris, por causa de uma longa conversa que, inevitavelmente teriam, quando percebesse 
que ela no era Carolina.
" melhor enfrentar isso, depois de nossa chegada a Paris", Pensou a moa, preocupada.
Quando subiu ao convs, o marqus j estava no cais, com uma nova carruagem e novos cavalos. Os seus prprios animais e carro tinham j seguido na frente com a bagagem.
O pajem ainda estendeu-lhe uma echarpe de gaze que havia tirado da mala, dizendo:
81
- Achei que a senhora iria gostar de t-la, pois as estradas da Frana so bem mais poeirentas do que as da Inglaterra.
Agradecendo-lhe, satisfeita, ela passou a echarpe por cima do chapu e ao redor do pescoo, ficando com o rosto ainda mais oculto.
Assim partiram de Calais em direo a Paris.
Como a estrada era quase reta e menos movimentada do que a da Inglaterra, os cavalos podiam correr velozmente.
Nos postos de troca, havia sempre os mesmos arranjos do dia anterior  espera deles.
com a velocidade e o vento forte, no era possvel manter nenhuma conversa. Por isso, Quorn  precisava estar muito atento aos animais.
Refletindo sobre toda a aventura, Rosana chegou  concluso de que, cansada como iria chegar, e zangado como o marqus ficaria ao saber da farsa, ela no teria foras 
para argumentar e facilmente romperia em lgrimas.
Ela sabia que Carolina jamais teria aguentado semelhante viagem. E, quanto mais pensava na insistncia dele em se casar de maneira to arbitrria, mais julgava tudo 
aquilo um insulto  inteligncia feminina.
As mulheres so seres racionais e a maioria delas esperaria que o marqus, ao menos, tivesse um pouco de afeto e considerao para com a mulher que levava o seu 
nome.
" inumano e positivamente cruel da parte dele ser to egosta."
Estava resolvida a torn-lo ciente de suas faltas, quando ele apontasse as dela.
Mas no naquela noite. Sentia-se exausta.
Chegando a Paris, rodaram por ruas pequenas e estreitas, depois por outras mais largas, o que indicava a aproximao do centro da cidade.
O carro entrou no ptio da manso mais suntuosa que ela jamais vira em toda sua vida. A, ele sacou um relgio do bolso do colete e falou num tom satisfeito:
- Onze horas e dez minutos!
82
Sem saber bem por que, e num tom diferente da sua voz
normal, Rosana conseguiu perguntar:
Qual  o recorde da Frana?
Doze horas!
era evidente que o fidalgo estava muito satisfeito consigo mesmo. Porm, quando Rosana saltou da carruagem, sentiu as pernas bambas.
No hall de entrada, um mordomo de uniforme resplandecente, deu-lhe as boas-vindas.
Ele guiou-a por uma linda escadaria de corrimo dourado, artisticamente trabalhado, e atravs de um corredor ornado de lindos quadros.
Sem conseguir conter sua curiosidade, ela indagou:
- Esta  a casa do marqus?
- Milorde comprou-a h trs anos do duque de Greville, madame. Agora estamos muito honrados em t-lo em casa.
O enorme dormitrio tinha um aspecto romntico com o teto coberto de pinturas e paredes brancas e douradas, com quadros de damasco de seda em tons de azul. Rosana 
achou que era um bonito fundo para o seu tipo e a cor de seus cabelos.
Estava, porm, to cansada que tanto dormiria naquela cama maravilhosa, quanto em cima de uma tbua.
- Essa  a sua camareira, madame - disse o mordomo, indicando uma moa que pendurava os luxuosos vestidos que acabara de retirar de uma de suas malas.
- Seu nome  Marie e espero que ela a sirva satisfatoriamente.
- Tenho certeza que sim, mas agora, como estou muito cansada, Marie, gostaria de me deitar imediatamente.
Como Rosana falou tudo aquilo em francs, a moa espantou-se:
- Madame fala francs como se fosse uma parisiense!
- Merci - agradeceu Rosana, sorrindo.
Ela pensou em dizer que era meio francesa, mas achou que era arriscado se tal informao casse nos ouvidos do marqus. Por isso falou ao mordomo:
83
- Por favor, transmita ao senhor marqus as minhas desculpas e diga-lhe que estou impossibilitada de jantar com ele hoje, pois foi uma viagem muito longa e fatigante!
- Tenho certeza de que milorde a compreender - repliCOu cortesmente o mordomo, retirando-se.
Ainda que fosse muito agradvel conversar na lngua de sua me, em Paris, como sempre o desejara fazer, Rosana deixou Marie ajud-la a se despir, em silncio, e 
deitou-se. Antes de a moa se retirar, Rosana j adormecera. Percebeu que mais tarde lhe trouxeram o jantar, mas
 limitou-se a se virar para o outro lado e continuar a dormir.
Na manh seguinte, entretanto, quando Rosana despertasse as coisas seriam bem diferentes.
Sabia que deveria tocar a campainha para chamar a camareira, em vez de saltar da cama e abrir, ela prpria, as cortinas. Mal acabara de pensar nisso, Marie j entrava 
no quarto e abria as cortinas, deixando um lindo sol invadir todo o ambiente. De dia o amplo quarto era ainda mais bonito do que lhe parecera na noite anterior.
- A senhora descansou bastante, madame? - perguntou Marie.
- Que horas so?
- Quase meio-dia, madame. Rosana deu uma risadinha.
- Jamais dormi at to tarde, em toda a minha vida! Sabia, tambm, que jamais tivera uma jornada to exaustiva.
Alm da fadiga, houvera a apreenso e a ansiedade do casamento. Por outro lado, estava ainda sob o efeito do nervosismo dos dias que precederam o regresso de Carolina 
de Londres e sua concordncia final  ideia maluca de Patrick, de cas-la com o marqus.
Parecia incrvel que tudo tivesse acontecido, exatamente, como tinham planejado. Naquele momento, Carolina j estaria casada e ela prpria tambm j o estava h 
trs dias.
Marie trouxe-lhe uma bandeja com caf e enquanto Rosana tomava-o aos golinhos, perguntou timidamente:
- Onde est o senhor?
84
O senhor marqus saiu, madame, e pediu-me para lhe dizer que lhe ser impossvel chegar antes do entardecer. Ele imaginou que a senhora pudesse querer sair e, por 
isso, deixou uma carruagem atrelada,  sua disposio.
Rosana recostou-se no travesseiro macio e, suspirando levemente, disse:
- Eu s desejo descansar e ter algo para ler.
- Trarei os jornais para madame e no boudoir existem muitos livros, entre os quais poder escolher algum.
Logo que Marie saiu do quarto, Rosana pulou da cama e dirigiu-se  porta de comunicao com o boudoir.
Era uma saleta decorada com muito gosto. O teto estava cheio de pinturas e, alm de uma bela estante, lindos quadros enfeitavam as paredes. Abriu as portas de vidro 
da estante e viu magnficas obras de autores franceses. Alguns eram livros sobre os quais ela e sua me tinham conversado, mas que eram difceis de se obter na Inglaterra. 
Ela hesitou, sem saber qual pegaria primeiro, afinal escolheu trs e voltou para a cama com eles.
Marie trouxe-lhe o almoo, mais gostoso do que qualquer coisa que comera na Inglaterra.
Sua me tivera razo ao dizer que a comida da Frana era a melhor do mundo. Enquanto comia, continuava lendo e s bem mais tarde
 compenetrou-se de que, como esposa, deveria levantar-se e aprontar-se para receber seu marido, quando ele chegasse.
Naquele momento, Marie entrou no quarto.
- Chegou uma mensagem do senhor marqus, madame, dizendo que ficou detido e s poder estar aqui na hora do jantar. Ele lhe pede muitas desculpas e espera que a 
senhora queira Jantar com ele s sete e meia.
"Isto j resolve um problema" pensou Rosana.
No teria de se vestir duas vezes e, para no pensar no que estava para acontecer, retomou a leitura.
Uma hora antes do jantar, Marie preparou-lhe um banho e, s quinze para as sete, informou-a de que o marqus acabara de chegar.
85
Rosana imaginou, um tanto cinicamente, se o motivo de no ter podido voltar mais cedo no seria to sedutor como aquele de cabelos ruivos e olhos verdes. A seguir, 
concluiu que esses no eram pensamentos apropriados para uma recm-casada.
Vivia uma lua-de-mel bem original. Quis rir da situao, mas mesmo ao pensar que no deixava de ser divertida, l no fundo sentia como se tivesse uma pedra sobre 
o peito. Resultado do temor que sentia pelo que estava para acontecer.
Para dar a si prpria "coragem holandesa", como dizia seu pai, escolheu o vestido mais lindo que a duquesa comprara, em Londres, para Carolina.
Era branco, portanto o mais apropriado para uma noiva, todo bordado com paets que brilhavam feito gotas de orvalho.
Toda a volta da bainha era ornamentada com pequenos lriosdo-vale que tambm acompanhavam o decote que deixava  mostra os ombros.
Rosana percebeu que o busto ficava um pouco alto, pois os vestidos da moda no eram mais retos e sem cintura, porm, tinham um pequeno espartilho que a deixava extremamente 
elegante.
Marie arrumou seu cabelo e insistiu para que usasse uma tiara de strass que cintilava, formando um halo ao redor de sua cabea.
Rosana lembrou-se que Carolina possua uma tiara de brilhantes verdadeiros e ficou imaginando se o marqus perceberia que a dela era imitao.
Aquela, usada no dia do casamento, pertencia  duquesa, ficara, naturalmente, no castelo. Um pouco decepcionada, com preendeu que a nica coisa de valor que possua 
era a aliana de ouro.
Se o marqus, na sua fria por ter sido ludibriado, a expulsasse, ela no teria um centavo e nada mais que pudesse vender para sobreviver.
Por outro lado, achou que ele no faria isso, porque seria um escndalo. Se, entretanto, agisse dessa maneira, e Rosana bem sabia que o nobre senhor poderia ser 
muito cruel se assim o quisesse, ela teria de procurar os parentes de sua me.
86
Depois que as hostilidades entre Frana e Inglaterra cessaram, sua me havia escrito aos parentes, dizendo que quando as coisas melhorassem, iria visit-los em Paris.
Fora tolice de sua parte, no ter mais escrito aos parentes franceses. Mas  que a tia a proibira de se comunicar com o que ela ainda chamava de "inimigos". Depois 
disso, qualquer carta para a Frana que fosse apanhada, seria destruda.
"Eles moram em Paris e, se o pior acontecer, poderei tentar
 encontr-los."
Enquanto descia a escada vagarosamente, tinha a impresso de que isso iria ser necessrio, pois o pior estava para acontecer.
Um lacaio veio ao seu encontro e conduziu-a atravs do hall at a entrada de um amplo salo.
Dois lindos candelabros de cristal resplandeciam com suas velas, apesar das cortinas ainda estarem levantadas e da luz do dia penetrar no salo.
Por um momento, tudo danou diante dos olhos de Rosana. Ela avistou no outro lado do salo, junto a uma das janelas, olhando para fora, a alta e elegante figura 
do marqus, agora seu marido.
Se ele ficava imponente nas suas bonitas roupas de montar ou nas que usara durante a viagem, mais majestoso estava, usando cales bufantes e uma gravata branca 
com um lao caprichoso.
Rosana caminhava lentamente, porque sabia que chegara o momento crucial da revelao. Mesmo assim, mantinha a cabea erguida e o queixo um pouco para a frente.
Quando j dera alguns passos, o marqus voltou-se e veio em sua direo, dizendo amavelmente:
- Boa noite, Carolina! Sei que devo pedir-lhe muitas desculpas e espero que agora esteja mais descansada e pronta para ouvi-las.
No momento em que se aproximava, ele parou junto a uma mesinha, onde havia duas taas e uma garrafa de champanhe e declarou:
- Acho que a primeira coisa a fazer  tomarmos um brinde
87
 nossa felicidade, encheu as duas taas e estendeu uma delas para Rosana.
S no momento em que ela tomou-a de sua mo,  que ele
a encarou.
Quorn  a olhava fixamente, enquanto uma expresso de surpresa se espalhava pelo seu rosto.
Ento, numa voz diferente daquela usada at aquele instante, exclamou:
- Mas voc no  Carolina!
- No.
Houve um silncio, antes de o marqus perguntar:
- Mas ento quem  voc e por que est aqui?
- Eu sou. sua esposa.
O nobre prendeu a respirao e, antes que pudesse dizer algo, acrescentou:
- Voc  a moa que estava na cavalaria e controlou Vulco!
- Sim, eu sou. Rosana.
- E voc diz que  minha mulher?
- Sim.
Por um momento, o nobre pareceu ter perdido a voz. De repente, porm, sua voz ecoou, feito um tiro de pistola, vibrante, aguda.
- Que diabo est acontecendo? E o que voc quer dizer com isso, de estar aqui no lugar de Carolina?
Rosana apertou os dedos em volta da taa de champanhe que ainda segurava na mo e tentou responder:
- Carolina estava apaixonada. por outra pessoa.
- Mas ento, por que no me disseram isso?
- Seu pai e sua me. insistiam em que ela deveria casar-se com o senhor.
O marqus se desviou de Rosana, pegou a taa de champanhe e tomou-a de um gole s, como se precisasse de reforo, e acrescentou:
- Eu creio, Rosana, que voc tem muitas explicaes para me dar!
- Posso... me sentar?
88
O marqus fez um gesto e a moa sentou-se no sof, pois sentia que suas pernas fraquejavam. com as mos trmulas, apertava a taa como se agarrasse uma corda, para 
no afundar.
Percebeu que o marqus esperava e, depois de alguns instantes, disse em voz baixa e hesitante:
- Carolina fugiu com o homem que ela ama. Era essencial que eles tivessem tempo para se afastar do castelo. Por isso... eu tomei o seu lugar...
- Voc tomou o lugar dela e casou-se comigo?
- Sim. creio que sim.
- Voc fez seu juramento como Mary... lembro-me disso.
 - Sim, eu fui batizada como Mary Rosana.
- Voc se parece com Carolina, imagino que tenham algum
parentesco?
Sim - Ns somos primas.
- Lembro-me, agora, voc disse que seu nome era Brunt.
parecia haver um certo mistrio  sua volta.
- O mistrio era porque a duquesa odiava meu pai e minha me.
Ela percebeu que, enquanto falava, o marqus a olhava cinicamente, por ela estar tentando pedir desculpas pelo seu comportamento. Por isso, calou-se. Depois de um 
momento ele disse:
- Voc  muito plausvel na sua explicao. Eu, porm, acho que a verdadeira razo  que voc desejava se tornar uma marquesa.
Rosana levantou o queixo orgulhosamente, replicando:
- Isso no  verdade. Patrick persuadiu-me de que seria o nico meio de ele e Carolina escaparem, pois no havia quase tempo entre a volta de minha prima de Londres 
e a hora em que voc queria o casamento.
Reparando que o marqus no se convencera, ela continuou:
- Se no houvesse tanta pressa para a cerimnia e Carolina tivesse podido voltar antes, ela teria fugido na sexta ou no sbado e no haveria necessidade de eu substitu-la.
O marqus franziu a testa, esforando-se em seguir o fio dos seus pensamentos.
- Parece, no entanto, que voc no relutou antes de aceitar isso.
- Para mim, era uma forma de escapar da priso do castelo, onde era obrigada a ser menos do que uma empregada, uma moa para cerzir roupas para minha tia!
- Voc acha que eu vou acreditar nisso?
- O senhor acredite ou no, essa  a pura verdade.
- De fato, ser que voc est insinuando que eu era o menor de dois males? - perguntou o marqus com sarcasmo.
- Sim, foi isso que eu prpria me disse. Asseguro-lhe, no tinha vontade alguma de me casar com o senhor como. homem!
- E por que no?
- Eu. eu o acho muito prepotente. e tambm egocntrico.
- Egocntrico? - repetiu o marqus.
- Certamente! Voc decidiu casar-se com Carolina, porque ela lhe convinha. Ela, porm, no foi consultada sobre o assunto e voc apenas achou que ela se sentiria 
to satisfeita quanto a duquesa.
Enquanto falava, Rosana percebeu que entrara por um caminho que o nobre no esperava.
Depois de pensar um pouco, ele disse:
- Sim, refletindo agora, acho que de certa maneira tudo foi um pouco arbitrrio!
- Foi imperdovel que Carolina lhe fosse oferecida como um presente, sem ao menos ter tido a oportunidade de expressar seu ponto de vista. Na verdade, ela discordaria 
de qualquer coisa que voc dissesse, mas isso no vem mais ao caso.
- Eu sempre pensei que o casamento das jovens fosse um negcio arranjado para elas e que, portanto, ficariam contentes com a maior oferta - observou o marqus, como 
se justificando.
Sentindo a sua surpresa por ter agido erroneamente, Rosana deu uma risadinha antes de falar:
- As moas transformam-se em mulheres. Duvido que voc
tratasse de forma to desumana as encantadoras senhoras que cortejou em Londres...
Ele dirigiu-se  mesinha, onde estava o champanhe e encheu outra taa. Olhou para a taa de Rosana e, vendo que ainda estava quase cheia, tomou um gole da sua e 
perguntou:
- Bem, e o que voc sugere diante dessa embrulhada?
- Acho que voc ter de notificar meu tio, mais cedo ou mais tarde, de que casou-se com a noiva errada.
- Voc acha que, at agora, eles ainda no perceberam nada?
- Eles podem estar imaginando sobre o que me tenha acontecido. Duvido, porm, que lhes ocorra que voc no esteja casado com Carolina.
- E o que eles fariam com respeito a voc? Rosana levantou levemente os ombros, comentando:
- Minha tia vai ficar contente de se ver livre de mim, mas, sem dvida alguma, estranhar que eu tenha fugido sem dinheiro algum e at sem um dos cavalos!
- Voc quer mesmo dizer que ela a odeia? Mas por qu?
- Poderei responder a isso facilmente. Meu pai morreu, deixando algumas dvidas e minha me era francesa.
- Francesa? - repetiu o marqus. - Ento  por isso que voc tem esses olhos?
- Eu bem temia que, mais cedo ou mais tarde, eles me denunciassem!
- Se Carolina  sua prima - disse o marqus como se falasse para si mesmo -, ento voc  filha de lorde Leo!
- Voc conheceu meu pai?
- Eu o admirava muito! Ele cavalgava maravilhosamente bem e, agora, compreendo por que voc herdou sua maneira de tratar cavalos.
- Papai era maravilhoso com qualquer cavalo, ainda que selvagem.
- Como eu sei que voc tambm . Rosana sorriu.
- Imaginei que... ao menos tivssemos. alguma coisa. em comum!
O marqus encarou-a, meio surpreso.
- Voc est pretendendo continuar com essa mistificao de ser minha esposa?
- No  uma mistificao. Ns estamos realmente casados e ainda que isso o deixe muito zangado. como  um ato legal. no creio que haja muito que voc possa fazer!
O marqus colocou sua taa sobre a mesinha e, olhando para a lareira onde, em vez de fogo havia uma linda cesta de flores, falou:
- No estou apenas zangado, estou enfurecido. Voc e Carolina fizeram-me passar por um grande tolo e isso  uma coisa que eu no aprecio.
- Eu penso - disse Rosana mansamente - que a nica forma de voc no parecer um tolo  fazer com que todos acreditem que sabia de tudo... e que casou-se comigo. 
deliberadamente.
- Ora, e por que eu faria isso?
- Por que voc quer salvar sua reputao.
Foi um ponto no qual Rosana s pensara naquele momento, mas que lhe parecia lgico.
Quando o nobre voltou-se para encar-la com surpresa, ela percebeu que Quorn  compreendera exatamente a que ela se referia.
Antes de ele manifestar-se, Rosana continuou:
- Voc poderia dizer que Carolina lhe havia contado tudo e implorara-lhe que fingisse estar de acordo, apenas para evitar que seu pai e sua me a proibissem, terminantemente, 
de ver Patrick outra vez. - Rosana falava pausadamente, como se tudo aquilo estivesse mesmo acontecendo diante dos seus olhos, por isso, prosseguiu: - E que ns 
dois encontramo-nos, por acaso, antes da Corrida de Obstculos e fomos vtimas de uma paixo  primeira vista! Portanto, teria sido sua a magnfica ideia de eu tomar 
o lugar de Carolina na igreja e que por esse motivo voc insistiu para que o casamento e nossa partida se realizassem com tanta pressa!
O marqus a olhava embasbacado. Ento, repentinamente, jogou a cabea para trs e deu uma sonora gargalhada.
92
- Eu no posso acreditar no que estou ouvindo! Isto no pode ser verdade! Devo estar sonhando!
- Eu tambm pensei estar sonhando desde que concordei em participar dessa ideia, que eu tinha certeza, seria uma brincadeira desastrosa.
- E voc realmente acha que algum vai acreditar nessa histria fantstica que poderia ter sado das Mil e uma Noites?
- No  mais fantstica do que a sua resoluo de casar-se com uma moa a qual tinha visto apenas duas ou trs vezes e a de viajar da Inglaterra para Paris, em tempo 
recorde, durante o que deveria ser uma romntica lua-de-mel!
O marqus riu novamente e acrescentou:
- Eu deveria ter-lhe contado a razo de toda essa pressa!
- Admito que estou curiosa em sab-lo e, tambm, da razo por que seu noivado teve de ser to curto e o casamento, to s pressas.
Ela percebeu a alterao na fisionomia do marqus, como se fosse um assunto do qual no pretendia falar.
Naquele momento anunciaram o jantar e, quando a jovem se levantou, ele ofereceu-lhe galantemente o brao e conduziu-a para uma bela sala de jantar, cujas paredes 
eram recobertas por tapearias riqussimas.
No centro da mesa, havia um candelabro de ouro com oito velas. Ornavam-na tambm alguns enfeites de ouro e, entre eles, lindssimas orqudeas verdes.
- Que beleza! - exclamou Rosana, sentando-se.
- Desculpe-me por no serem da cor tradicional para uma noiva, porm, quando soube que elas tinham acabado de florescer no orquidrio, achei que voc as apreciaria 
mais do que camlias brancas compradas.
- Talvez essa cor fosse mais apropriada.
- Se voc est sugerindo que seria sinal de infelicidade para mim, est enganada. O verde  uma das minhas cores de corrida, a outra  o preto.
- E certamente voc tem tido muita sorte no que se refere aos seus cavalos.
93
- No posso me queixar - acrescentou o marqus, complacentemente -, apesar de no ter conseguido vencer aquele jovem que me desafiou no ltimo momento, na Corrida 
de Obstculos. Parece-me que o seu nome  Patrick Fairley.
- Eu estava rezando para que ele o derrotasse, pois seria um sinal de bom pressgio para a felicidade deles.
- Agora compreendo por que ele estava to ansioso para ser o vencedor - observou o marqus, divertido.
Rosana deu um suspiro.
- Foi uma corrida deveras excitante, jamais pensei que Patrick pudesse ter uma chance. Agora, porm, ele venceu em outro sentido e eu desejaria que voc tivesse 
suficiente esprito esportivo para desejar-lhe felicidade.
- Eu deveria pensar que o mesmo se aplica a mim - disse o nobre zombeteiramente.
Em vez de responder, a moa levantou o copo de vinho.
- A Patrick que recebeu um trofeu muito especial, apesar de todas as desvantagens existentes contra ele.
O marqus levantou o copo e bebeu um gole, acrescentando:
- Eu acho que voc deveria tambm fazer um brinde a mim. Mas, para
 poup-la, eu peo que o guarde para mais tarde.
Da, ela apressou-se a dizer:
- Logo os criados entraro com o segundo prato e, antes disso, voc poderia contar-me a razo de toda essa pressa para chegar a Paris.
- Ah, naturalmente, a explicao  bem simples: o prncipe regente
 pediu-me para comprar-lhe, bem discretamente, cinco quadros extremamente valiosos que hoje iriam a leilo.
- Quadros! - exclamou Rosana. - Isso eu jamais teria imaginado!
- Ora, mas qual outro motivo voc pensou que fosse a razo de tal pressa?
Primeiro ela achou que no deveria responder, mas afinal disse em tom de desafio:
- Se no fosse um cavalo, e acho que voc tem muitos, s poderia ser. uma mulher!
94
O marqus olhou para ela, como se no pudesse acreditar que uma pessoinha daquelas pudesse ser to impertinente. Ento, respondeu:
- Vejo, Rosana, que voc no , de forma alguma, o que eu esperava de uma jovem debutante, inexperiente e pura.
- Sinto muito se o desapontei, mas eu no tive permisso para debutar e, na realidade, eu tenho dezenove, portanto um ano mais que Carolina.
- E imagino que nesse ano de diferena acumulou uma poro de conhecimentos extras! - disse ele outra vez zombeteiro.
- Posso lhe assegurar que todos os meus conhecimentos vm apenas de livros. Como voc mesmo comprovou, no me viu no castelo; eu no tinha permisso de ter contato 
com nenhuma pessoa de fora. - Mudando o tom de sua voz, ela continuou calmamente: - Desde que meu pai e minha me faleceram eu tive de permanecer na retaguarda, 
desprezada, maltratada e castigada. Portanto, se agora me comporto com exuberncia, o senhor tem de desculpar, mas  que me sinto como uma garrafa de champanhe desarrolhada.
As palavras que lhe vinham abruptamente aos lbios fizeram o marqus rir e dizer:
- Eu j percebi como sua imaginao trabalha, Rosana, e no posso deixar de achar que esse  mais um exemplo.
- Voc pode acreditar no que quiser, mas eu invariavelmente, e sempre que possvel, digo a verdade.
- Exceto quando voc est se pondo no lugar de outra pessoa!
- Existem excees para todas as regras.
- Ou voc  muito esperta ou muito tola e eu estou ansioso para separar o joio do trigo, a verdade da mentira!
Enquanto jantavam, Rosana percebera, e isso devia ser uma inovao do marqus, que logo que estavam servidos, os criados retiravam-se.
Quando era hora de servirem outro prato, ele tocava um sininho de ouro colocado  sua frente.
95
Agora estavam sozinhos, por isso Rosana falou:
- O que posso lhe dizer, e estou lhe contando a pura verdade,  que Carolina estava aterrorizada com voc e o odiava! Eu tambm estou... atemorizada e, ainda que 
no o odeie, creio que  um homem diferente e difcil. - Como o marqus no dissesse nada, ela acrescentou: -
 Lembro-me, agora, do conselho de meu tio a caminho da igreja, para eu fazer exatamente o que voc mandasse, pois  uma pessoa muito difcil de se tratar.
- E voc pretende fazer isso?
- Depende das ordens que me der. Tive oportunidade de apreciar a sua eficincia nestes dias, e ver como planeja tudo at os ltimos detalhes. Por isso, gostaria 
de saber o que posso esperar em vez de ficar especulando e temendo.
Depois de um curto silncio, Quorn  perguntou:
- Voc continua me acusando de ser amedrontador. Isso , realmente, uma verdade?
- Naturalmente voc deve ter cincia de que todos o temem, exceto, talvez, as belas mulheres que desejam cativ-lo. Mas, no ntimo, acho que at elas o temem. Seus 
criados, l no castelo, disseram que voc os amedronta.
O marqus encarou-a ao contrapor:
- Uma pessoa nunca pode se ver por meio dos olhos de outra. Eu sou eficiente. Gosto das coisas feitas com perfeio. Mas no creio que, por isso, esteja dominando 
as pessoas pelo temor e no por respeito.
- Na realidade, voc gostaria que as pessoas o admirassem. E  o que acontece, mesmo quando desaprovam suas atitudes.
- Mas, afinal, o que voc sabe a meu respeito? No estava prisioneira no castelo? Como pde ouvir falar de mim, antes de eu conhecer Carolina?
- J tinha ouvido falar dos seus sucessos nas corridas. Tambm como pugilista e nos duelos em que saiu vencedor e, naturalmente, nos seus numerosos casos amorosos!
Repentinamente, o marqus bateu com o punho na mesa, fazendo os pratos e copos estremecerem e pularem.
96
 - Como voc ousa falar comigo dessa maneira? O que voc sabe sobre minha vida? Quem iria lhe falar a meu respeito, se isso no  da sua conta?
Falou quase gritando e, por um momento, Rosana s conseguiu fit-lo com olhos muito abertos, at se recobrar e poder dizer:
- Eu... eu sinto muito. Falei sem pensar... e sei agora. que foi muito rude da minha parte, faz-lo.
Ela pedia desculpas com humildade, a zanga do marqus desapareceu dos olhos dele e ele disse em tom diferente: - Agora sim, eu a amedrontei e isso  um erro. Voc 
foi to franca comigo e  o que eu deveria esperar de voc, apesar de no aceitar isso de outras pessoas.
Rosana olhou vagamente para as orqudeas.
- Foi rude da minha parte tambm.  que eu nunca estive
sozinha com algum. como voc.
Inesperadamente, o marqus estendeu-lhe a mo por cima da
mesa, com a palma virada para cima.
- Perdoe-me. Voc me apanhou de surpresa e eu esqueci-me - de como voc  jovem.
Relutante, porque ele a assustara, Rosana vagarosamente colocou a sua mo sobre a dele.
Seus dedos fecharam-se sobre os dela e, novamente, ela se
conscientizou da sua energia e das vibraes que sentira na
igreja.
- Oua, Rosana, ns temos de fazer um pacto - disse Quorn  calmamente.
- Um pacto?
- Sim. De que sempre falaremos com franqueza, sem que nenhum de ns se ofenda. Temos de tentar fazer este estranho e at ridculo casamento dar certo.
97
CAPITULO VI
Ao terminarem de jantar, foram para o salo. Quorn  acomodou-se confortavelmente em uma poltrona, e Rosana, sem pensar, sentou-se no tapete, diante da lareira.
Estava to acostumada a fazer isso no castelo, quando conversava com Carolina ou, em casa, com seus pais, que no cogitou se aquilo seria adequado  sua nova posio.
O marqus, tambm, no fez nenhuma observao. Apenas ficou admirando o quadro. Ela estava to bonita, sentada no meio daquele vestido cheio de brilhos, que lhe 
dava o aspecto de uma flor salpicada com pingos de chuva!
- Bem, agora vamos falar sensatamente sobre ns, Rosana.
- Ora, pensei que j estvamos fazendo isso.
- H muitas coisas para decidirmos. Em primeiro lugar, quando voc quer que eu me comunique com seus tios?
Rosana deu um gritinho:
- Ainda no! Por favor. ainda no! Quero estar absolutamente certa de que Carolina est salva e tambm.
- E tambm... - repetiu o marqus. Rosana parecia procurar as palavras exatas:
- Eu... eu estava pensando se voc tem certeza de que deseja me conservar. como esposa.
- E se eu no quiser? O que voc faria?
-  muito. humilhante - disse Rosana num fio de voz
- mas, como no tenho dinheiro teria de pedir-lhe algum. ao menos para eu partir e me esconder em algum lugar, onde tia Sofia no pudesse me encontrar. Eu no aguentaria 
voltar para o castelo, sabendo como ela iria me castigar. por ter sido enganada.
98
- Ento, j  uma coisa que teremos de evitar. Eu sugeri, durante o jantar, que tentssemos fazer com que essa unio desse certo.
- Voc realmente deseja. isso?
- Eu geralmente no digo aquilo que no desejo - replicou o marqus. - Admito que, no primeiro instante, fiquei furioso, imaginando como poderia me livrar desta 
situao em que vocs me colocaram, mas vejo que no haveria sada alguma, sem um escndalo.
- Sei que voc detesta situaes confusas! - disse Rosana mansamente.
-  verdade, no gosto mesmo e, por isso, concordo com seu plano e direi que me casei com voc, porque assim o quis.
- Isso seria maravilhoso para Carolina e evitaria que seus pais tentassem anular seu casamento.
- Bem, ento o futuro dela est acertado. E quanto ao nosso?
- Como voc foi to bom e compreensivo, tentarei ser. o menos importuna. possvel.
- O que quer dizer com isso?
- Quero dizer... - respondeu ela hesitante. - Como sei que voc est apaixonado. por outra pessoa vai querer passar a maior parte do seu tempo. com ela.
- Quem disse que eu estou apaixonado por algum? perguntou ele,
 zangando-se novamente.
Rosana olhou-o apreensiva e respondeu timidamente:
- Em Londres, vrias pessoas contaram a Carolina que voc estava se casando com tanta pressa, porque envolvera-se com uma senhora muito bonita, de cabelos ruivos 
e olhos verdes. E ainda comentavam que esse envolvimento poderia at causar um incidente diplomtico e por isso. o senhor decidiu se casar.
Enquanto falava, ela percebeu que o marido tornou-se tenso estava ficando outra vez nervoso.
Por outro lado, achou que seria melhor serem francos, desde o comeo, e prosseguiu:
- Por essa razo, como obviamente no quero me aborrecer com o que voc faz. no iria intrometer-me, quando desejar
99
ficar a ss com uma senhora que lhe interessa. Acho que poderamos ser bons amigos.
Houve um silncio prolongado entre os dois, que foi rompido pelo marqus:
- Este, porm, no  o tipo de casamento que planejei. Rosana encarou-o rapidamente:
- Voc quer dizer que poderamos realmente viver como marido e mulher?
- E por que no?
A jovem arregalou os olhos, como se no acreditasse no que ouvira.
- Eu no sei como duas pessoas agem, quando. fazem amor. mas tenho certeza que, para Carolina, que adora Patrick, ser maravilhoso!
Ela fez uma pausa e depois continuou:
- Como porm voc no me ama e eu tambm no o amo... acho que seria errado, muito errado.
- Mas ns estamos casados, Rosana! - disse o marqus calmamente.
- Apenas por engano do seu ponto de vista e, ainda que eu goste muito de seus cavalos e de seus quadros  diferente de sentir-me atrada por voc, como... homem.
Quorn  fez um trejeito com os lbios, dizendo:
- Franqueza  algo que nunca experimentei anteriormente, no meu relacionamento com as mulheres.
- Por favor, no estou querendo ser rude ou difcil. mas o nosso...  um casamento diferente do que voc esperou. e eu desejei.
- Sim, suponho que toda noiva queira estar apaixonada! Ele acentuou essas palavras como se fosse algo censurvel. Rosana, esquecendo-se da humildade, protestou:
- Naturalmente que sim! Como poderia ser de outra maneira? Por que ela seria forada a casar-se com um homem. s porque ele  rico e importante? Isso  errado!  
contra qualquer coisa que Deus desejou.
- E, no entanto, voc casou-se comigo para salvar Carolina e a si prpria.
100
- Sim. eu lhe disse isso mesmo - confirmou a jovem. - Ento... nestas circunstncias, voc no acha que me leve alguma coisa?
Rosana estava ficando confusa.
- Eu j disse o quanto lhe sou grata, mas no h nada mais que eu possa fazer para demonstrar minha gratido... do que. procurar ser agradvel.
Novo silncio interps-se entre os dois. Finalmente Quorn  disse:
- Suponhamos que eu lhe diga que prefiro ter um casamento normal, como pretendia com Carolina, no qual voc seja minha mulher no s no nome, mas de fato.
Essas palavras perturbaram Rosana. Ela se levantou e caminhou at uma das janelas que dava para o jardim e ficou olhando para fora. A luz desaparecia do cu, dando 
lugar  noite com muitas estrelas.
Reinava profundo silncio e apenas uma leve brisa sussurrava entre as folhas das rvores.
Parecia a Rosana ter alcanado a magia que sempre procurara nos lugares bonitos. Magia esta que lhe pertencia, fazendo parte de seu prprio ser, dos seus instintos, 
dos seus sonhos e seu desejo de felicidade.
Era como se estivesse tateando cegamente, em direo a alguma coisa ilusria, algo que ela temia nunca poder alcanar. Todos os seus nervos estavam tensos, e sua 
mente parecia desejar aquela magia com todas as foras.
Sobressaltou-se, quando percebeu que seu marido havia se aproximado e estava bem atrs dela.
- Est pensando em fugir de mim? - perguntou ele com sua voz grave.
- Eu... no tenho lugar algum. para onde fugir.
- Ento sugiro-lhe que fique e comearemos com meus cavalos e quadros. Vamos ver para onde eles nos conduzem, antes que eu faa alguma coisa que a atemorize novamente.
Rosana voltou-se, para olh-lo bem de frente.
- Voc realmente. deseja isso?
101
Agora, seus olhos brilhavam como as estrelas no cu, e o temor desaparecera completamente deles.
- Em geral no admito que minhas decises sejam discutidas
- disse o marqus secamente. - Mas voc  muito convincente no que diz e no que pensa, Rosana.
- Quer dizer que pode... ler meus pensamentos?
- Seus olhos so muito expressivos, Rosana.
- Fico satisfeita por eles o terem persuadido de que estou com a razo.
- No estou dizendo que voc esteja com a razo, apenas que vou concordar com o seu desejo.
- Ento. muito obrigada. Sou-lhe muito agradecida. Dando por encerrado o assunto, o marqus comeou a fazer
planos para o dia seguinte. J era quase meia-noite quando Rosana disse:
- Creio que vou me deitar. h tantas coisas excitantes sobre as quais desejo lhe falar amanh... que para isso gostaria de estar bem preparada.
- Recebo isso como um elogio para mim - replicou o nobre, rindo. - V deitar-se, agora, e se estiver disposta a cavalgar, de manh, encontre-me s oito horas aqui, 
para irmos ao Bois de Boulogne.
- Posso mesmo ir junto?
- Espero poder apreciar a sua companhia daqui por diante.
- Muito obrigada. obrigada mesmo! No atrasarei. Levantando-se, ela estendeu a mo, pensando se seria a forma
correta de se despedir.
Para seu alvio, o marqus tomou-a e levou-a cerimoniosamente aos lbios,  moda francesa, e acrescentou:
- V dormir, Rosana, e no se preocupe mais. Se voc deixar tudo comigo, tentarei faz-la bem mais feliz do que foi no passado.
com um lindo sorriso, disse, meio sria, meio brincando:
- Agora, sim, tenho certeza de estar sonhando. Eu j estava me preparando para dormir ao relento. ou pedir-lhe uma passagem de volta  Inglaterra.
- Tem razo: falsificadores e impostores, aqui na Frana,
102
so levados para a Bastilha - comentou ele em tom de brincadeira.
- Ento sou-lhe muito grata pelo confortvel leito que me espera l em cima. Boa noite... - disse ela graciosamente, fazendo uma pequena reverncia. Encarando-o, 
ainda uma vez, com curiosidade, percebeu um brilho estranho nos seus olhos.
Sentindo-se aliviada, subiu as escadas correndo, procurando dar vazo a seu contentamento.
Marie estava  sua espera no quarto, para ajud-la a trocar de roupa e deitar.
Ao vestir-se para o jantar, na tarde seguinte, Rosana lembrou-se de que, h muito tempo, no tivera um dia to alegre e agradvel. Ao longo dos ltimos dois anos, 
vagara pelo castelo feito um fantasma, desejando no ser vista por ningum e, menos ainda, pela tia, para no levar uma reprimenda.
No tinha licena de conversar com ningum, exceto com Carolina, e, por isso, representava uma alegria imensa poder, agora, conversar com uma pessoa inteligente 
como o marqus.
Alm de inteligente, era instrudo e educado, tanto que ela at perdera o temor de lhe responder, fazer observaes e trocar ideias.
Entre as roupas do enxoval de Carolina, comprado pela tia, encontrou dois trajes de montaria e ela escolheu o mais ousado. Era em tom verde-folha, com gales brancos 
 maneira militar. Acompanhava-o um chapu preto com vu verde. Era a coisa mais linda que Rosana j vira.
Ao entrar no hall, s oito horas da manh, Rosana recebeu um olhar de admirao do marqus.
- Para uma mulher, voc  extremamente pontual - disse ele em tom seco, mas brincalho.
- Como sua esposa, eu no poderia agir de outra maneira. E como sua amiga, eu no gostaria de deix-lo esperar - replicou a moa, cortesmente.
com um sorriso de apreciao, ele ajudou-a a montar e arrumou-lhe a saia por cima do cavalo.
103
O animal que montava no era to magnfico quanto Vulco, mas era excelente.
Entretida com a conversa, Rosana no percebeu que os dois causavam sensao entre os cavaleiros habituais do Bosque.
A maioria eram homens. Muitos cumprimentavam o nobre, como velhos amigos, e estavam ansiosos para serem apresentados  sua bela esposa.
Rosana respondia em francs e todos a congratulavam pela desenvoltura com a lngua. Quando eles ficaram a ss, ela lhe perguntou:
- Devo dizer-lhes que minha me era francesa? Ou devo deixar que continuem pensando que sou Carolina?
- Por enquanto,  melhor deixarmos as coisas como esto. Explicaes podem, s vezes, causar confuses, principalmente porque o duque mandou anunciar nosso casamento 
na London Gaze]tte, no Times e no Morning Post.
- Estou vendo que  uma situao complicada para voc e acho mesmo melhor esperarmos, tanto quanto possvel, e dar tempo a Carolina e Patrick para que saiam da Inglaterra.
- Eles pretendiam sair do pas? - perguntou o nobre.
- Parece que vinham para a Frana, mas como Patrick planejou tudo muito bem, no creio que haveria perigo de serem apanhados no ltimo instante.
Sim, essa era a verdade. Mas como Rosana vivera algum tempo  sombra da autoridade ducal do seu tio, era-lhe quase impossvel acreditar que algum pudesse engan-lo 
e venc-lo.
- Voc j est outra vez preocupada e eu prefiro v-la sorrindo.
- Ento eu sorrirei - replicou a moa alegremente. Depois do passeio, ele a levou a uma exposio de quadros,
que a deixou encantada.
- Mame adoraria v-los. Ela falava-me a respeito dos pintores franceses e, apesar de eu conhecer reprodues, no  a mesma coisa.
O entusiasmo da jovem divertia o marqus. Tomaram a carruagem aberta, dirigindo-se a uma confeitaria. Novamente foram alvos de muitas atenes. S, ento, Quorn 
104
observou o alheiamente de Rosana que no se dava conta de como estava atraindo os olhares de admirao dos franceses e os de inveja das francesas.
Sob as rvores do jardim ficaram conversando longamente, enquanto se deliciavam com o ch, os doces e os salgadinhos da cozinha francesa. Falaram sobre quadros e 
cavalos e a moa fez muitas perguntas a que ele respondia gentilmente.
Em dado momento, ele demorou para responder, e Rosana, caindo em si, desculpou-se:
- Estou aborrecendo-o com minhas perguntas? Por favor, diga-me se assim for.
- No, garanto-lhe que no estou aborrecido.
- Sei que ignoro tudo a seu respeito e farei o possvel para aprender o mais rpido possvel. Apesar disso, receio incomod-lo pedindo-lhe que me ensine tantas coisas.
- Se eu achar cansativo, dir-lhe-ei.
- Estava pensando como  maravilhoso para mim, estar com algum como voc.  como se eu estivesse com papai, s que  diferente!
- Estou lisonjeado - disse o marqus secamente.
- No estou menosprezando papai. Ele era muito inteligente, vivo e sempre insistia em que eu procurasse saber manter o que ele chamava de "uma conversa inteligente". 
Na realidade, ele preferia conversar com mame e, quando ela estava presente, eu no conseguia atrair sua ateno. Assim, voc pode compreender como me sinto satisfeita 
por t-lo inteirinho. para mim, ao menos. pelo momento.
- Voc est determinando um limite de tempo?
- Receio que no somente uma linda senhora poderia vir arrebat-lo, mas que tambm voc talvez quisesse sair da minha vida e, a, nada me restaria a no ser acordar 
deste sonho.
Quorn  soltou uma risada, comentando:
- O seu mal  ser muito imaginativa e Deus sabe como  que poderei me acomodar com isso! Voc j me arranjou muitas encrencas e estou sem saber o que me espera no 
futuro.
- S desejo que no esteja me achando montona.
- Ah, isso seria impossvel!
105
Da forma como falou, tornou-se difcil perceber se deveria aceitar essas ltimas palavras como um elogio ou uma crtica.
Enquanto Marie ajudava-a a vestir um outro vestido muito elegante Rosana cogitava que, pela primeira vez, desde a morte de seu pai, sentia-se feliz e sem receio.
"Ele no  propriamente. amedrontador", confessou a si mesma.
Por outro lado, sabia que, se o marqus ficasse zangado com ela, como acontecera na noite anterior, ela sentiria o corao parar de bater e o ar lhe faltar.
"Tenho de mant-lo rindo e divertindo-se com o que eu digo."
Mentalmente fez uma prece para que seu pai a ajudasse, lembrando-se da forma pela qual ele conseguia manter alegre o ambiente de toda festa em que fosse.
Atrara sempre as pessoas pelo seu fascnio, assim como fora atrado pelo de sua me.
"Eu preciso exercer o mesmo fascnio!", pensou Rosana.
- A senhora est linda, madame! - disse Marie.
Essas palavras trouxeram-na para a realidade. S ento, percebeu que Marie pusera-lhe um vestido rosa muito suave, que acentuava o tom dourado de seus cabelos e 
aprofundava o mistrio dos seus olhos escuros. No vestido havia pequenos cravos bordados e Marie lhe enfeitara os cabelos com alguns lindos cravos de jardim. Estes 
lhe davam um aspecto muito juvenil.
Quando entrou no salo, o marqus achou que ela parecia Diana, vindo das entranhas da floresta para expor, aqui fora, os primeiros raios da primavera.
Ficou admirando a leveza e a graa com que se aproximava e que a maioria das jovens no possua. com tanta naturalidade, sem nada de artificial.
Dando uns passos em sua direo, o marqus lhe disse:
- Estive pensando que, se voc quiser, depois do jantar poderei lev-la  festa de uns amigos, onde haver dana.
- Seria maravilhoso! S espero saber danar bem. Papai ensinou-me a danar, mas isso faz muito tempo.
O marqus encarou-a sorrindo:
- Ento  mais uma coisa que eu terei de lhe ensinar."
106
- Voc no se importa?
- Naturalmente que no! Terei muito prazer em faz-lo! Rosana hesitou e finalmente disse:
- Por favor. como me sinto embaraada de ser to ignorante ser que poderamos primeiro danar em algum lugar, onde s houvesse estranhos e no seus amigos?
- Acho essa uma ideia bem sensata - concordou o nobre.
- E  o que vamos fazer.
- Ainda bem que voc me entende!
- Pelo visto, voc pensava que eu era totalmente bronco ou "grosseiro".
- No, naturalmente que no! Na realidade, voc  muito mais compreensivo do que pude imaginar. Voc possui um instinto admirvel para perceber o sentimento das 
pessoas, coisas que jamais esperei encontrar em sua pessoa.
O marqus no respondeu e Rosana continuou:
- Muito poucas pessoas possuem esse dom especial do instinto, que papai chamava de magia.
- A magia que voc usou com Vulco? - perguntou o nobre.
- Exatamente! E vale tanto para animais quanto para pessoas.
- Ento estou satisfeito por voc achar que eu possuo essa qualidade.
Ela sorriu, mas antes de ele dizer alguma coisa, o jantar foi anunciado e eles passaram para a outra sala.
Rosana estava faminta e experimentou todos os pratos. Tomou ainda um pouco de champanhe. O nobre contou que procedia de vinhedos que pretendia adquirir.
- Seria muito interessante ter seus prprios vinhos. Poderamos ir ver as plantaes?
- Sim, e meu plano  ir at l, logo que nos cansarmos de Paris.
- Ah, mas no to logo - pediu Rosana. - H tanta coisa que eu gostaria de ver aqui. Tenho certeza de que ainda existem muitos museus e galerias com quadros para 
voc inspecionar.
107
O marqus ia responder, quando a porta abriu-se, repentinamente, fazendo com que a jovem se voltasse assustada.
Um homem entrou de maneira agressiva.
Quando Rosana viu alguns criados atrs dele, com as feies alteradas, compreendeu que ele forara sua entrada, sem esperar ser anunciado.
Ele bateu a porta e atravessou o salo, olhando firme para Quorn .
- Soube que o senhor estava aqui e se pensa em escapar, engana-se!
Falava ingls, mas com acento que no era francs nem tampouco austraco.
Tinha um aspecto estranho: bigode encaracolado e suas roupas, caras e bonitas, nada tinham de inglesas.
Avanou mais e s parou a alguns passos do marqus, quando ento disse:
- Considero o seu comportamento com a princesa um insulto para mim, como homem, e vou me vingar!
O nobre levantou-se.
- Devo lhe dar as boas-vindas  minha casa, Alteza - disse, procurando controlar-se. - E posso ter a honra de lhe apresentar minha esposa?
Achando que era sua obrigao, Rosana tambm levantou-se para fazer uma reverncia, logo que o prncipe olhasse em sua direo. Em vez disso, ele encarava o marqus 
de forma muito estranha e, falando num tom de quem estava reprimindo grande raiva, exclamou:
- Se o senhor pensa que pode me enganar, casando-se e abandonando a Inglaterra, est muito enganado! Eu no sou nenhum idiota, Quorn , e estou muito bem informado 
do modo ultrajante de seu comportamento. No tenho a mnima inteno de permitir que voc escape ao seu justo castigo!
- Apenas posso lamentar que Vossa Alteza pense dessa maneira - o marqus comeou a dizer.
- O senhor me insultou! - esbravejou o prncipe. - E tem de pagar por isso!
Ainda calmo, o marqus replicou:
- Neste caso, Alteza, como no posso recusar essa provocao, ns nos encontraremos ao anoitecer.
Rosana sabia que isso significava um duelo e, quando viu no rosto do prncipe uma zanga furiosa, emitiu um murmrio de discordncia, pensando no perigo que ele corria, 
desejando ferir o rival.
- Ao diabo com o anoitecer! - esbravejou o prncipe, furioso. - No vou desafi-lo a um duelo com pistolas! Conheo sua reputao como atirador. Tenho uma forma 
muito melhor de me vingar e da qual o senhor no escapar.
Assim falando, atirou a capa para trs e Rosana viu que segurava uma bengala na mo.
No primeiro instante pensou que iria bater no marqus com ela.
Mas, ento, ele apertou um boto, o invlucro de madeira caiu e em sua mo apareceu uma espada de lmina afiada e longa, que brilhou  luz dos candelabros.
- S quando eu o matar, meu caro marqus,  que estarei vingado e a justia feita.
Assim falando, recuou o brao e impeliu-o para a frente, pretendendo atingir o corao de Quorn  com a ponta da lmina.
Sem pensar, sem hesitar, Rosana atirou-se entre os dois homens.
- O senhor no pode matar um homem desarmado. comeou ela.
Sua voz foi sumindo, terminando num gemido.
A interveno de Rosana pegou o prncipe de surpresa e ele no teve tempo de desviar a espada que atingiu, em cheio, seu ombro, em vez de penetrar no peito do marqus.
Como ela casse no cho, o marqus moveu-se, pela primeira vez, desde que o prncipe o atacara. Atirando-se contra ele, deu-lhe um murro no queixo. Quando o prncipe 
caiu para trs, no assoalho polido, o marqus levantou-o pelos braos e jogou-o pela janela aberta, no jardim.
A seguir, voltou-se rapidamente e ajoelhou-se ao lado de Rosana.
109
Parecia a Rosana ver, atravs de ondas de escurido, uma luzinha muito fraca.
Ao longe, ela ouvia uma voz que dizia:
- Beba isto!
Sem foras para desobedecer, sentiu a borda de um copo ser
colocada entre seus lbios.
Era forte e queimava, por isso ela procurou virar a cabea a fim de se recusar a tom-lo, mas a voz repetiu:
- Tome! Isso far com que se sinta melhor!
- Ela est voltando a si, milorde - ouviu uma outra voz dizer. - Milady apenas desmaiou.
A escurido diminuiu, e Rosana sentiu algo queimar-lhe o
peito.
Por alguma razo, no podia compreender por que no queria
abrir os olhos e estava com medo.
Ouviu a voz do marqus falar num tom que jamais ouvira:
- Acorde, Rosana, por favor, acorde!
Achando que tinha de fazer o que ele mandava, a moa abriu os olhos e viu-o inclinado sobre ela, com o rosto bem perto
do seu.
Durante alguns momentos ela no conseguiu focalizar os olhos
e a perguntou:
- Voc... est. bem?
- Graas a voc, estou bem. vou, agora, carreg-la para cima. O mdico chegar logo.
- O... mdico? - murmurou Rosana.
S ento conseguiu lembrar-se do ocorrido. Julgou ter dado um grito, mas foi apenas um gemido. Tornou a perguntar:
- Voc est... bem?
- Sim! A nica pessoa a quem ele atingiu foi voc - disse o nobre calmamente.
Ele a ergueu cuidadosamente nos braos e, s ento, Rosana viu uma mancha vermelha espalhando-se atravs do peito do vestido e percebeu que seu ombro estava coberto 
com os guardanapos da mesa.
Queria fazer perguntas e saber o quanto estava ferida, mas
no conseguiu.
110
Alm do mais, tudo isso j no importava. A fora e o calor dos braos do marqus transmitiam-lhe grande conforto.
Passaram-se muitas horas at Rosana conseguir raciocinar claramente.
Percebeu que estava em sua prpria cama e seu brao enfaixado e sustentado por uma tipia.
Veio-lhe, repentinamente, o pensamento de que, talvez, a ferida que o prncipe lhe infligira poderia resultar na perda do brao.
Deu um grito, e percebeu ento que algum estava ao seu lado. Pensando que fosse Marie e sem abrir os olhos perguntou num fio de voz:
- Eles. eles no vo amputar. meu brao, no  mesmo?
- No, no, claro que no! - respondeu Quorn  com firmeza.
Quando abriu os olhos, viu-o inclinado sobre ela, muito preocupado.
Ficou surpresa de v-lo, pois percebera que a nica luz do quarto vinha de um candelabro ao-lado da cama.
Pde ver a gola branca do pijama dele, sobre o veludo do robe e concluiu que deveria ser noite. Certamente deveria ter estado dormindo.
- O seu ferimento  s superficial - falou ele, mansamente. - Apesar de que vai doer e causar-lhe desconforto. Sou-lhe profundamente grato, Rosana, por ter salvo 
minha vida.
- Ele. pretendia. mat-lo?
- Ele  louco! Mas, certamente arrependido, deve estar sofrendo muito mais do que voc. S espero que isso o apazigue. Aquele tolo!
A forma como ele falou isso deu  jovem vontade de rir, mas era muito esforo para ela. O que o mdico lhe dera deixava-a com a impresso de ter a cabea cheia de 
algodo.
- Eu... eu estou contente. por t-lo salvo - murmurou ela, e adormeceu.
111
Quando Rosana acordou outra vez, Marie estava arrumando o quarto. O sol entrava pela janela e, ao lado de sua cama, havia uma cesta de orqudeas brancas.
- A senhora est acordada, madame? - perguntou Marie.
- Gostaria que eu a arrumasse, lavasse o seu rosto e lhe trouxesse algo para comer?
- Eu. eu tenho. sede.
Marie trouxe um refresco de limo, adoado com mel e muito gostoso. Estando com a boca muito seca, a moa tomou a bebida rapidamente, mas a sentiu dor no ombro 
e franziu o cenho.
Percebendo isso, Marie acrescentou:
- O mdico vir mais tarde trocar a atadura, madame. Ele vai ficar satisfeito em saber que a senhora dormiu bem.
- Eu ainda. estou com sono.
Naturalmente era o efeito dos remdios que lhe tinham sido ministrados.
Marie, entretanto, insistia em lavar-lhe o rosto e as mos e arrumar-lhe os cabelos, que ainda estavam com os caracis caprichados da noite anterior. Marie escovou-os 
at que cassem ao longo de seu rosto, chegando quase ao seu peito. Depois prendeu-os com uma fita azul.
O mdico veio. Pediu a Rosana que voltasse o rosto para o outro lado e examinou o ferimento: enfaixou-o novamente e disse, como somente um francs diria:
- Porque a senhora  muito bonita, marquesa, e tambm forte e saudvel, seu ferimento vai sarar logo e, com certeza, no ter febre.
- Vai deixar. uma cicatriz muito feia?
- Acho que no. De qualquer maneira, ser apenas um risquinho branco sobre a perfeio de sua pele, a qual seu marido vai considerar uma condecorao por bravura!
Era uma forma de se expressar, que nenhum mdico ingls usaria, por isso ela sorriu para o francs barbudo, quando este lhe beijou a mo dizendo:
- A senhora  muito corajosa, madame, e me sinto honrado por tratar de uma pessoa to encantadora!
Quando ele se foi, Quorn  veio v-la e Marie saiu do quarto.
- Como se sente?
- Muito bem. obrigada. e o doutor disse-me. que a cicatriz no ficar muito feia.
- Como voc pde ser to carinhosa? - perguntou o marqus, com um tom estranho em sua voz.
- Eu. eu no sabia o que estava. fazendo. S sabia que era errado o prncipe atac-lo, por voc estar desarmado.
- Se voc no tivesse interferido, certamente a ponta da espada teria atingido meu corao.
Seus dedos apertaram os dela, quando ele acrescentou:
- Eu estava ainda cogitando sobre como poderia evitar que ele me matasse, quando voc me salvou!
- Eu estou contente. muito contente. por ter agido assim. Como  que voc poderia morrer daquela maneira?
- Por qu? Ser que sou to especial?
- Claro! Voc  to magnfico. sempre o vencedor! Teria sido. uma morte vergonhosa ou um ferimento que talvez o. deixasse. invlido. Nem quero pensar nisso!
- Sou-lhe muitssimo grato, Rosana! Como sou, porm, curioso, gostaria de saber por que voc pensa dessa maneira.
- Eu. eu apenas queria. salv-lo - disse ela, com voz sonolenta.
Enquanto falava, ela sentiu as plpebras fechando de sono, e apesar de querer continuar a conversar, mergulhou na maciez de nuvens que no eram mais escuras, e sim, 
cinzentas.
A ltima coisa de que se lembrava  que ele ainda estava segurando-lhe as mos.
113
CAPITULO VII
- Quero me levantar - pediu Rosana.
A freira que arrumava flores no vaso, sobre a penteadeira, voltou-se. com fisionomia serena, disse:
- O mdico prometeu que a senhora poder descer, um pouquinho, hoje  tarde. At l precisa descansar, madame.
- Estou cansada de tanto descansar - disse Rosana para si mesma, sem querer aborrecer a freira que o mdico enviara.
Eram duas. Uma dava-lhe assistncia durante o dia e a outra de noite. Assim, no mais aconteceu de o marqus ficar de planto a seu lado, durante a noite.
Apesar do otimismo do mdico, ela tivera febre dois dias, o que a enfraqueceu muito. A ferida, entretanto, estava sarando e cicatrizava. Cobria-a, apenas, um leve 
curativo.
A moa observava a freira arrumando as lindas flores, que lhe eram trazidas todas as manhs. Acabou perguntando:
- Onde est milorde?
- Ele saiu de carruagem, minha senhora.
- Carruagem?
- Sim senhora, de carruagem. Vi quando ele saiu bem cedinho, e ainda admirei a elegncia dele ao guiar a carruagem puxada por dois belssimos cavalos.
Rosana teve vontade de perguntar se o marqus estava s. Isso, porm, seria bobagem, porque ele poderia sair sozinho dali e no estar s, quando chegasse ao Bois 
de Boulogne.
Durante um momento admirou-se que o pensamento de ele estar acompanhado de uma bela senhora doer mais do que a ferida no seu ombro. Afinal, teve de admitir que sentia 
cime.
E estava mesmo com muito cime s por imaginar que, sem
114
sua presena, ele pudesse estar passeando, conversando e rindo Icom outra mulher atraente.
- Mas... o que ser isso? - perguntou, pondo as mos sobre o peito. E a resposta parecia estar escrita em letras de fogo nas paredes do quarto: e"stava apaixonada 
por seu marido! IComo podia ter sido to ingnua, e imaginar que poderiam ser amigos por muito tempo?
Rememorando os tempos passados, concluiu que se apaixonara por ele desde a poca em que ouvira as primeiras histrias a seu respeito, motivadas por inveja, cime, 
mas tambm admirao.
Estava claro que, como jovem romntica, apaixonara-se por "aquela figura de homem diferente, um homem muito especial. "Eu o amo! pensou desconsolada, pois sabia 
que aquele sentimento no seria correspondido.
Talvez, agora, depois de ter vencido o prncipe, ele fosse novamente se encontrar com a princesa dos cabelos vermelhos e olhos verdes.
E mesmo que esse "caso" tivesse sido desfeito, por ser to perigoso, certamente haveria dzias de outros. Todas aquelas histrias de mulheres que se suicidavam ou 
morriam com o corao partido, de tanto amor por ele, feriam-na agora profundamente.
Recostando-se nos macios travesseiros daquele lindo quarto de teto pintado, ela pensou que sem o marqus toda a beleza do mundo no tinha sentido.
- Quero estar com ele. Quero lhe falar - murmurou consigo mesma.
O sol j no brilhava para Rosana e a mesma escurido que a cobrira, quando a espada do prncipe a feriu, apossava-se novamente da moa.
Depois do almoo, Marie veio ajud-la a se levantar e vestiu-lhe um lindo vestido enfeitado de rendas e fitas azuis como o cu. Para Rosana, porm, parecia que ele 
estava cinzento e chuvoso.
A freira soltava exclamaes de admirao diante de suas formas. Afinal, acalmando-se, disse:
115
- Eu vim me despedir, madame. A senhora j se recuperou e no precisa mais dos meus servios. Foi um grande prazer e privilgio cuidar da senhora.
Emocionada, Rosana agradeceu  freira e, como no tinha mais nada para lhe oferecer, insistiu para que levasse para o convento uma das cestas de orqudeas que enfeitavam 
seu quarto.
A freira ficou encantada em ter alguma coisa que pudesse repartir com as outras irms e agradeceu muito.
- Rezaremos para seu restabelecimento e por sua felicidade, madame, e que Deus abenoe seu casamento e lhe d filhos to lindos quanto a senhora e o senhor marqus.
Quando Marie acabou de arrum-la, Rosana levantou-se com dificuldade, dizendo:
- Minhas pernas parecem feitas de gelia!
-  como achei que voc se sentiria depois de seu descanso - disse uma voz que vinha da porta.
Ela olhou para o marqus e achou-o mais elegante que nunca. O sol filtrado pelas cortinas envolvia-o de um enorme halo, como se ele fosse um heri de legenda.
Vinha sorrindo e declarou:
- Como os meus cavalos no so to hbeis, a ponto de subirem uma escada, voc me dar licena para eu desempenhar seu papel e lev-la para o salo.
- Espero no ser muito pesada - respondeu Rosana. Erguendo-a nos braos como se fosse uma pluma, o marqus
no respondeu.
Rosana estremeceu, ao contato daqueles braos fortes e daquele rosto to prximo ao seu.
No achava nada para dizer, apesar da vontade de lhe perguntar onde estivera, o que, afinal, agora, j no importava.
Ele a carregou cuidadosamente escadas abaixo e no hall colocou-a de p, diante da porta do salo.
- H uma surpresa  sua espera.
- Uma surpresa?
- Algum que voc vai gostar muito de rever!
Sabendo, ento, que no iria ficar a ss com ele, como tanto desejara, Rosana ficou desapontada e at aborrecida.
116
No teve, porm, sequer tempo de responder, pois um paje abriu a porta e ela teve de entrar no salo.
Percebeu que havia, na outra extremidade do aposento, duas pessoas mas, no seu ressentimento, nem tentou olhar melhor.
Quando uma delas vendo-a, correu em sua direo, ela percebeu quem era e gritou:
- Carolina!
As duas se beijaram e abraaram contentssimas.
- Rosana, que maravilha ver voc outra vez! E que amabilidade do marqus em nos trazer at a sua presena!
"Ah, ento foi isso que ele foi preparar, hoje cedo!", pensou Rosana.
E assim, repentinamente, sentiu como se o sol tivesse inundado o salo com toda sua claridade.
Patrick tambm a beijou. Ele e Carolina falaram ao mesmo tempo:
- Como  que poderemos lhe agradecer? Tudo aconteceu graas a voc! Ns estamos felicssimos!
- E... vocs, afinal, se casaram? - perguntou Rosana.
- Claro que sim. Patrick tinha providenciado tudo. Alm do mais, querida Rosana, o marqus esteve nos dizendo que tem a certeza de que nem mame nem papai tm a 
mnima ideia do que aconteceu!
- Eles vo ter um choque quando souberem - interveio Patrick. - Mas como o seu marido disse que vai assumir toda a responsabilidade, ento no haver mais motivos 
para que Carolina fique temerosa.
Rosana olhou para o marqus como se esperasse uma explicao. Este falou, ento, naquele tom seco e ao mesmo tempo brincalho que ela j conhecia to bem:
- Eu lhes disse que falarei, em primeiro lugar, com seu tio e vou lhe contar aquela histria que voc inventou.
- Voc vai mesmo fazer isso? - perguntou Rosana.
- Ele disse que sim - interveio Carolina. - E ns lhe somos muito, muito gratos.
117
Havia tanta coisa para perguntar e contar... Rosana ficou admirando a beleza de Carolina: ela estava linda, porque sentia-se muito feliz.
As duas moas tomaram ch e conversaram muito, enquanto os homens preferiram champanhe e, naturalmente, falaram sobre cavalos.
Porm, antes que tivessem conversado sobre a metade dos assuntos, Patrick olhou o relgio e disse:
- Como no pretendemos perder o trem, acho bom irmos andando.
- Mas para onde vocs vo? - perguntou Rosana.
- Para Nice - respondeu Carolina alegremente. - No  uma maravilha? E mesmo imaginando que voc estivesse em Paris, no teramos tido coragem de vir procur-la 
e v-la, se o marqus no descobrisse onde estvamos e nos trouxesse aqui.
E olhando para Quorn , Carolina falou:
- Voc  to mais simptico e bom do que eu o imaginava, que devo
 pedir-lhe desculpas.
- Isso me deixaria embaraado - replicou o marqus, rindo. - Eu estou muito alegre por tudo ter terminado to bem para ns todos.
Os dois homens foram  frente para verificar se a carruagem que os levaria  estao estava pronta. Enquanto isso, Carolina, dando o brao para Rosana, perguntou-lhe 
baixinho:
- Voc est bem, querida? Ele no a destratou, quando soube de tudo?
- No, de forma alguma! Na realidade, foi at muito bom.
- Ele no  to amedrontador, quanto o julguei. Ao contrrio, foi to amvel quando nos trouxe para c. Desejo que vocs sejam to felizes -quanto eu e Patrick, 
ou, ao menos, quase to felizes! Estar casada  como estar no cu!
Patrick chamou-a, l de fora, pois a carruagem os esperava.
- Obrigada, obrigada, mais uma vez, querida Rosana. Se no fosse voc, eu teria perdido Patrick e estaria, certamente, muito infeliz.
Rosana acompanhou-a at onde estavam os dois homens.
Ela e Quorn  esperaram a carruagem se afastar, com Carolina abanando um lencinho, e ento voltaram para o salo. Olhando para seu marido, Rosana disse:
- Como voc pode imaginar uma coisa to linda! Procurar Carolina e Patrick e traz-los aqui?
- Eu no queria que voc continuasse a se preocupar com sua prima. Como descobri que eles estavam em um hotel, em Chantilly, fui para l esta manh e insisti para 
que viessem at aqui, antes de partirem para Nice.
- Ah, eles esto muito, muito felizes - disse a jovem com um suspiro.
- Tambm achei isso - concordou o marqus, em voz baixa. Rosana ia sentar-se no sof, porm, ele disse:
- J so quase cinco horas e se voc pretende jantar comigo, o que me daria muito prazer, acho bom ir descansar um pouco.
Rosana soltou uma exclamao de protesto:
- Oh, no! No quero deix-lo, agora!
- Ns estamos na Frana -, replicou o marqus, sorrindo
- e cinco  sept  a hora em que todo francs e francesa ajuizados descansam para estarem bem-dispostos  noite.
Assim falando, tomou-a nos braos e levou-a para cima.
Enquanto subiam as escadas, consciente daquele aconchego gostoso, ela lembrou-se de como seu pai rira ao falar da verdadeira significao de cinq  sept. Seus pais 
conversavam na biblioteca e no perceberam que ela estava ouvindo.
" um costume francs, minha querida, que se discute muito. Os franceses dizem que esto descansando.  uma forma sutil para a expresso tte--tte, um encontro 
a dois, em que os parceiros, naturalmente, terminam fazendo amor".
Sua me rira gostosamente.
"E os franceses, realmente, estabelecem um momento especial para isso? "
"Ora, voc pode imaginar uma coisa mais sensata?", replicara seu pai. "Eu at estou pensando em introduzir esse costume em nossa casa. E deixar bem claro que, das 
cinco s sete, no devemos ser perturbados."
Sua me rira e Rosana compreendera que, quando seus pais subiam abraados, iam "descansar"  moda francesa.
A, ento, passou-lhe pela mente que, talvez, o marqus tivesse insistido tanto em descansar porque teria algum encontro marcado com algum.
"Depois de tudo que eu lhe disse. ele nem percebeu que eu no concordei com essa ideia", refletiu ela, muito infeliz.
Novamente sentiu aquela pontada de cime no peito, teve vontade de se agarrar ao marido e lhe pedir para que no a deixasse.
Quando Quorn  a colocou no cho do quarto, Rosana lanou-lhe um olhar suplicante, mas seu orgulho no permitiu que lhe pedisse para no sair.
- Estou passando a ferro o neglig mais bonito, para a senhora us-lo, hoje  noite. O senhor recomendou que o jantar fosse servido no boudoir - comentou Marie, 
entrando.
- No boudoir? - exclamou Rosana surpresa.
- Para evitar que a senhora tenha de descer as escadas e de se vestir novamente, informou o senhor marqus - explicou a camareira. - Mas peo licena, agora tenho 
de encomendar umas flores bem bonitas do jardim, para colocar nos seus cabelos.
- Obrigada - disse Rosana.
Entrando embaixo das cobertas, ela pensou que qualquer coisa que usasse, o marido nem iria notar.
Sem dvida alguma, naquele momento ele estaria indo ao encontro de alguma bela senhora que o esperava em seu boudoir. Certamente ele a acharia to atraente, que 
no deixaria de tom-la nos braos. Ele a beijaria, como seu pai beijava sua me, como se ela fosse um ser infinitamente precioso.
- Certamente Quorn  jamais sentir isso por mim - murmurou Rosana.
E, por sentir-se to s, lgrimas vieram-lhe aos olhos e escorreram pelas suas faces. No se importando com isso, ela nem as enxugou.
Continuou deitada, pensando que seu amor pelo marqus doa mais do que qualquer ferimento que lhe infligissem.
120
Repentinamente, a porta que dava para o boudoir abriu-se.
As lgrimas no lhe permitiram v-lo nitidamente.
Ele caminhou em direo ao leito e sentou-se a seu lado, encarando-a bem.
A moa sentiu um tremor apoderar-se de todo seu corpo e conscientizou-se da atrao que ele exercia sobre a sua pessoa.
- Voc est chorando, Rosana? Est sentindo alguma dor?
- no.
- Mas, ento, est infeliz?
Ela no queria lhe dizer a verdade, mas como o marido estava esperando por uma resposta, murmurou:
- Pensei que voc me tivesse deixado sozinha.
- Voc disse que queria ficar comigo - replicou o marqus calmamente -, e por isso achei que poderamos descansar juntos.
Pela maneira como falara e por estar to prximo, Rosana sentiu o corao acelerar-se.
A dor passara e, uma nova excitao dominou seu corpo. Era como se o sol iluminasse e inflamasse seu corao.
O marqus retirou um leno do bolso e gentilmente enxugou as lgrimas dos olhos e do rosto da moa.
S ento Rosana percebeu que ele tambm, trocara de roupa.
Sem dizer nada, ele levantou-se, deu a volta ao leito e, tirando o robe, entrou embaixo dos lenis.
Rosana prendeu a respirao e apesar de desejar fit-lo, ficou envergonhada.
- Bem, sobre o que vamos conversar, agora? - perguntou ele, calmamente. - Ah, sim, sobre quadros e cavalos, assuntos em que ns dois estamos interessados, mas acho 
que existe outro assunto sobre o qual deveramos falar antes.
- E, de que... se trata?
- Voc ainda no me contou por que teve tanta coragem para salvar a minha vida.
Como ela no respondesse, ele acrescentou:
- No acredito que nenhuma outra mulher tivesse raciocinado to rapidamente e agido de maneira to corajosa.
121
Envolvida pelo tom macio de sua voz, Rosana estremeceu e perguntou:
- E se o prncipe tentar outra vez? E se ele lhe der um tiro ou tentar apunhal-lo? E se voc no puder defender-se?
- Ele jamais far isso - respondeu o marqus, com toda a segurana.
- como pode ter tanta certeza?
- O prncipe deixou Paris e voltou para sua ptria. Rosana deu um suspiro de alvio.
- Ah, estou contente... muito contente mesmo.
- Por qu?
Sem esperar esta pergunta, ela voltou-se. S, ento, percebeu que ele estava muito perto dela e viu como suas feies eram bonitas.
- Eu lhe perguntei, Rosana, qual o motivo de estar to contente por eu estar salvo? - Depois de uma pausa continuou.
- Quando voc me salvou, achei que talvez fosse porque eu represento algo especial para voc e assim voc sentiria alguma coisa se eu morresse pelas mos do prncipe.
- Naturalmente eu... sentiria muito! Como poderia perd-lo, quando...
Ela parou, achando que falara demais e quase dissera algo muito revelador.
Pondo o brao ao redor de seus ombros, ele puxou-a delicadamente, para no machucar o ombro ferido.
Rosana estremeceu e sentiu todo o magnetismo daqueles dedos, atravs do tecido leve da camisola.
- Voc ainda no me respondeu - disse suavemente.
- Ah, no sei. acho que me esqueci... O que foi?
- Agora voc no est dizendo a verdade. Lembra-se de que me prometeu ser sempre franca comigo?
Como ela no respondesse, ele pegou-lhe gentilmente o queixo e ergueu o seu rosto para poder encar-la.
Esses gestos fizeram-na estremecer novamente.  claro que ele deveria ter percebido alguma coisa.
122
Seus rostos estavam juntos e, quando ela fixou seus olhos nos dele, percebeu uma expresso que jamais vira neles.
- Agora, voc vai me dizer exatamente e com toda a franqueza, o que sente a meu respeito.
Ele quase a hipnotizava com a magia que transpirava de todo o seu ser. Rosana viu-se murmurando coisas que jamais imaginara conseguir dizer em voz alta.
- Eu... eu te amo. no consigo dominar esse sentimento. Eu te amo!
- Como eu tambm te amo! - disse ele, beijando-a carinhosamente nos lbios.
Ela sabia agora, que era exatamente aquilo que mais desejara em toda sua vida. O beijo dele trouxera-lhe no apenas o sol, mas a lua, as estrelas e toda magia que 
ela sempre observara nas coisas lindas do mundo e, instintivamente, sabia que um dia encontraria no amor.
Essa magia parecia exalar-se de seu ntimo, como se ele estivesse lhe tirando a alma, para que se juntasse  sua prpria.
O beijo dele era maravilhoso, to perfeito, que Rosana, ento, compreendeu como Carolina havia chegado ao cu e encontrado o amor que no era somente humano, mas 
tambm parte de Deus.
Por esse amor ela rezara muito, pois pensava t-lo perdido para sempre e, no entanto, a estava e era seu.
Quando ele parou de beij-la, sentindo-se excitada pelas sensaes que lhe eram transmitidas, Rosana foi dizendo, atropeladamente:
- Eu te amo... eu te amo. mas nunca imaginei. que voc me amasse!
- Apaixonei-me por voc desde o primeiro momento em que a vi. Quando voc agiu de maneira to inteligente com Vulco. Depois que deixei o castelo, continuei pensando 
em voc e apesar de procurar evit-lo, parecia que seus olhos me perseguiam.
- Mas. isso  verdade? - perguntou Rosana, incrdula.
-  a pura verdade. E ainda hoje, quando Carolina estava aqui, pensava em como minha sorte no me abandona, e, por
123
uma artimanha do destino, acabei casando-me com a pessoa certa e no com a errada.
- Mas... ser que isso  mesmo verdade? - insistiu Rosana.
- J vi que vou levar muito tempo para convenc-la de que estou lhe dizendo a verdade, minha querida. Mas agora vou beij-la novamente, pois ansiava faz-lo desde 
aquele dia em que me disse que poderamos ser apenas bons amigos.
- Como... eu pude ser to tola!
A ele comeou a beij-la apaixonada e sensualmente, apertando-a contra seu peito at despertar nela todo o seu desejo e vibrao.
Sentindo o corao bater freneticamente contra o seu, ela percebeu que o excitara muito e que ele, tambm, estava possudo pelas mesmas sensaes mgicas por todo 
o seu ser.
Parecia-lhe terem transposto os limites do cu e que a terra ficara l longe. Num tom de voz que lhe era desconhecido, ele falou:
- Minha querida! Meu amor! Eu a desejo! S Deus sabe o quanto eu a desejo. Mas eu no faria nada que a amedrontasse.
- Eu... no estou... amedrontada.
- De verdade? Voc est bem certa disso? - perguntou ele ansioso.
Havia um leve tom de paixo na voz de Rosana, quando ela
disse:
- Ensine-me a amar... por favor... ensine-me a am-lo, como deseja ser amado.
- Voc tem certeza de que no vai ter medo?
Apenas temo. fazer alguma coisa errada.
com uma expresso de amor e felicidade no rosto, ele a beijou ardentemente, com mais paixo do que antes.
Suas mos acariciavam-na com muita emoo e carinho e ela percebia que os dois estavam sendo levados por uma magia estranha que os inflamava.
Apesar de ser ardente era, ainda assim, mstica, espiritual e cheia de encanto.
174.
Havia uma luz deslumbrante, uma msica que provinha de seus coraes e no momento em que ele a possuiu, soube que havia ansiado pela beleza do amor, da vida e de 
Deus h muito tempo. E que tudo s poderia ser encontrado, quando duas pessoas tornam-se uma, atravs do xtase e do enlevo que os transporta ao cu.
Muito tempo depois, quando o sol se havia posto e as sombras da noite avanavam pelo quarto, Rosana virou-se para beijar o ombro do marido.
Os braos dele  sua volta apertavam-na e ele perguntou:
- Eu a fiz feliz, minha querida? No a magoei?
- Eu... eu no sabia que seria possvel ser to incrvel e completamente... feliz!
- Era isso que eu desejava que voc sentisse, minha jia. E sei que nenhum de ns, naquele momento, era apenas humano, mas tambm divino.
- Como voc pode ser to maravilhoso? Sua magia  to forte que agora eu sei o que  amor.
Ele deu uma risadinha, antes de falar:
-  a sua magia, minha mulherzinha, da qual no consegui escapar desde que a vi pela primeira vez. Senti que ela me guiava, me prendia e, enquanto achava que estava 
imaginando coisas, eu sabia muito bem que voc lanara um encantamento do qual eu jamais poderia escapar.
- Bem, mas vamos supor. que eu o aborrea?
- Isso seria impossvel.
- Como pode ter tanta certeza disso? Puxando-a mais para perto, ele disse:
- No  preciso dizer a voc que tive muitas mulheres na minha vida, mas sempre me desapontaram. Por isso, eu estava procurando algo diferente. Algo que no fosse 
possvel traduzir em palavras, mas que eu sabia existir no interior da minha mente e nas profundezas do meu corao.
Ele estava lhe narrando um verdadeiro conto de fadas e Rosana levantou o rosto, fitando-o com seus grandes e misteriosos
125
olhos. Mergulhando em seu olhar, ela compreendeu o que ele estava querendo lhe dizer.
- Eu era como um peregrino, escalando uma montanha apenas para descobrir que existe outra montanha e outro horizonte mais alm, e assim por diante. - Mudando o tom 
da voz, ele acrescentou: - Eu me julgava to auto-suficiente, to completo e perfeito em todos os sentidos, que no prestei ateno a esse aspecto que voc chama 
de "magia" e que me ps de sobreaviso para algo que estava faltando.
- Mas voc. tinha conscincia disso?
- Sim, eu tinha conscincia disso e quando uma mulher me desapontava e o amor que eu esperava encontrar no se achava ali, eu me dizia cinicamente que estava esperando 
demais e pedindo o impossvel. Ento voltava a escalar outra montanha, na esperana de descobrir em seu topo o clice sagrado, ou o toso de ouro ou, mais simplesmente, 
o amor que cada homem, se ele for honesto consigo mesmo, procura e acredita que um dia encontrar.
Rosana aconchegou-se ao seu peito.
- E... agora?
- Eu encontrei voc!
- Mas imagine, apenas imagine...
Ele ps seus dedos sobre os lbios dela.
- Eu a encontrei. Voc  tudo que eu procurei tanto tempo e cheguei a pensar que fosse obra da minha imaginao.
Ele olhou para o seu rosto, como se observasse sua beleza e continuou:
- Eu adoro seu rosto, seus olhos, seu narizinho, seus lbios, diferentes dos de qualquer outra mulher. Quando os toco com os meus, sinto-me diferente.
- Como diferente?
-  difcil explicar. Enquanto eu a desejo como mulher e ningum  mais desejvel que voc, eu a desejo de todas as maneiras possveis.
Ele beijou-a na testa e continuou:
- Sua mente me estimula e eu fico lembrando as conversas que tivemos e, desejando continu-las logo.
Era exatamente o que Rosana tambm sentia e ela suspirou de satisfao quando ele falou:
- Sei tambm que, de certa forma, o seu corao fala ao meu e sua alma  minha. Ns temos os mesmos ideais, os mesmos sentimentos, a mesma tendncia a ajudar outras 
pessoas, de sermos generosos com o que nos cerca.
Ele sorriu e disse:
- Tudo isso soa muito srio, mas como voc vai ser a marquesa de Quorn  mais linda que j existiu, ter de se esforar para criar uma poro de situaes diferentes, 
a fim de me estimular e ajudar aos que necessitam da nossa ajuda.
- vou adorar fazer isso - murmurou Rosana.
- E ainda mais, alm de todas essas coisas que sempre existiram no interior da minha mente, estava o fato de que a mulher que eu escolhesse para minha esposa tinha 
de ser a pessoa ideal para ser a me de meus filhos.
Ele viu como Rosana ficou encabulada e disse ternamente:
- Eu creio, minha querida, que quando ns tivermos filhos eles sero inteligentes e bonitos e tambm possuidores de muitos ideais, desde o momento em que nascerem.
Rosana encostou o rosto em seu peito e falou baixinho:
- E se eu... falhar? Suponha que eu... no seja suficiente para. voc?
Segurando seu queixo entre os dedos, ele levantou o rosto da moa, a fim de poder olhar bem dentro de seus olhos.
- O que realmente estou querendo dizer  que no sou suficientemente bom para voc. Porm, querida, tenho certeza de que nossa magia despertar o que h de melhor 
em ns dois.
- Disso eu tenho certeza! - exclamou Rosana. - E porque eu te amo, tentarei fazer tudo o que voc desejar.
Como ela falava com espontaneidade e sinceridade, ele beijou-a com muito carinho.
Ela sentiu-se elevar, novamente, pelo fogo daquele sentimento e pela magia de tudo o que ele lhe havia dito.
Eles no eram apenas um instrumento do seu amor, mas o prprio encantamento, do qual nunca escapariam.
Ento, como os beijos dele tornavam-se cada vez mais insistentes, ela sentiu que a magia, provinda do seu interior, ficava bem mais intensa juntando-se  dele.
No momento em que ele tornou a possu-la s havia o xtase, o encantamento e a glria daquele amor que se originava em Deus, pertencia a Deus e que seria deles por 
toda a eternidade.
128
QUEM  BRBARA CARTLAND?
As histrias de amor de Barbara Cartland j venderam mais de 350 milhes de livros em todo o mundo. Numa poca em que a literatura d muita importncia aos aspectos 
mais superficiais do sexo, o pblico se deixou conquistar por suas heronas puras e seus heris cheios de nobres ideais. E ficou fascinado pela maneira como constri 
suas tramas, em cenrios que vo do esplendor do palcio da rainha Vitria s misteriosas vastides das florestas tropicais ou das montanhas do Himalaia. A preciso 
das reconstituies de poca  outro dos atrativos desta autora, que, alm de j ter escrito mais de trezentos livros,  tambm historiadora e teatrloga. Mas Barbara 
Cartland se interessa tanto pelos valores do passado quanto pelos problemas do seu tempo. Por isto, recebeu o ttulo de Dama'da Ordem de So Joo de Jerusalm, por 
sua luta em defesa de melhores condies de trabalho para as enfermeiras da Inglaterra, e  presidente da Associao Nacional Britnica para a Sade.

Fim
